"Por Deus, tenham um blog!" Papa Bento XVI


Coragem, Levanta-te! Jesus te Chama!


domingo, 22 de janeiro de 2012

É por aqui senhor padre...

POR AQUI SENHOR PADRE...



Pe. Renato Dutra Borges e Pe. Jão Lúcio Gomes Benfica, para o blog da forania de Ipanema.



Quando foi que os senhores chegaram à África? Como foram esses primeiros dias, a acolhida, as primeiras impressões?



Chegamos em Luanda, capital de Angola dia 11/01 e aguardamos o voo até Lwena, capital da província do Moxico e sede do bispado, chegamos em Lwena dia 12/01. No dia 13/01 partimos para paróquia São Bento em Cazombo, da qual será desmembrada a paróquia de Santo Antônio de Kavungo, onde iremos residir.

Ao chegarmos no aeroporto internacional de Angola – Luanda, ficamos um longo tempo na fila da migração estrangeira para o carimbo do visto. Logo em seguida encontramos com um enorme sorriso no rosto da irmã Evinha, Sacramentina de Nossa Senhora, que nos acolheu com muita alegria. Nos conduziu até sua residência depois de termos passado na CEAST órgão da Conferencia Episcopal de Angola e São Tomé e Príncipe no departamento que cuida da documentação dos Missionários estrangeiros. A tarde fomos fazer o chek-in das bagagens para Lwena, para nossa surpresa o limite de peso das bagagens foi reduzido para 20 kg por pessoa, assim tivemos que pagar pelo excesso de nossa bagagem que já era pouca, 30 kg cada um. Terminado os procedimentos retornamos para a casa das irmãs sacramentinas que para o repouso e na madruga, conduzidos pelo Pe. Marcelo, salesiano, voltamos ao aeroporto domestico de Luanda para o embarque rumo a Lwena.

Na viagem para Lwena, diocese onde vamos viver e testemunhar nossa vida de Missionários Sacramentinos de Nossa Senhora encontramos irmã Susana, já conhecida dos Pes Renato e Geraldo Mayrink e novas amizades começaram já a ser estabelecida com um jovem argentino, leigo voluntario salesiano de nome Francisco e que nos ajudou muito no embarque pois a policia de imigração não queria aceitar o xerox autenticado de nosso passaporte. E com intervenção desse jovem tudo se resolveu, até porque os padres e as irmãs são muito bem vindos a Angola, por não ter deixado o povo em tempos de guerras. . Em Lwena onde as irmãs já nos esperavam para nos conduzir ao episcopado onde o bispo diocesano Dom Tirso nos esperava demostrando sua alegria em nos acolher. Apresentou nossos quartos e podemos conversar um pouco sobre nossa viagem e os preparativos que ainda estavam por acontecer.

Foram apresentados a nós alguns documentos da CESAT e da diocese sobre a organização das pastorais e os livros litúrgicos, coleção da liturgia das horas e o missal dominical e ferial. Padre Abel Neto, procurador da diocese nos conduziu ao departamento de transito para conversar com o comandante sobre permissão para dirigir em Angola, assim tomamos tais iniciativas mas so poderemos obter esta permissão depois que recebermos o visto de trabalho que ficou sendo organizado em Luanda.

Ao voltarmos para o bispado fomos acompanhados pela irmã Tereziana.... e por Madalena agente do bispado para fazer algumas compras para nossa casa em Kavungo; panelas, talheres, copos, garrafas, bacias, lençóis, toalhas, cobertores... tudo isto num mercado informal na cidade, ficamos nestas compras ate as 15 horas quando voltamos ao bispado para o almoço e descansar um pouco da viagem. À tarde voltamos a fazer algumas compras, pois  onde vamos morar é difícil encontrar produtos que precisamos de imediato, mas so depois de alguns dias que iremos poder fazer esta analise do que realmente necessitamos para nossa sobrevivência, por enquanto tudo é um grande “mistério”.

A noite fomos organizar a bagagem e as comprar no carro para a viagem de Lwena a Cazombo, viagem de 700km. Depois de muito trabalho para ajeitar o que precisaríamos de imediato: gerador de energia, camas, panelas, talheres... Claro que o carro uma Land-cruiser da Toyota foi lotado e ainda precisou usar o bagageiro externo superior.

Saímos bem cedo para viagem, por volta das 5 horas, o ditado, é no andar da carruagem que as aboboras se acertam, foi levado a serio em nossa viagem, estradas de difícil circulação, ainda mais em tempo de chuvas, para nosso alivio estamos no inicio das chuvas por aqui. Há cada quilometro de estrada íamos vislumbrando novos cenários, relevos e planícies, de buraco em buraco fomos avançando. A primeira parada foi em Kamanongue para uma pequena visita as Irmas.... que são brasileiras e que acabaram de chegar na diocese e também uma visita ao padre.... .

Seguimos viagem para Luau, passando por Mucunda, Kassai Sul. chegamos em Luau por volta das 14 horas, visitamos os padres deonianos, conhecemos mais um missionário brasileiro, padre Luis Claudio, natural de Taubaté. Almoçamos e para nossa surpresa foi oferecida uma gostosa caipirinha e depois de alguma conversa podemos saborear um delicioso vinho do porto, pois os outros padres de Luau são portugueses. Conversando combinamos de acolher mais um viajante ate Cazombo, num sinal de acolhida um dos padres iria viajar conosco...o carro que já estava cheio ficou ainda mais apertado, pois o escolhido para viagem o padre Luis Claudio pesa uns 150 kg além da bagagem. Em Luau fomos visitar as irmãs hospitaleiras. ali reabastecemos o carro com gasóleo (óleo diesel) e reorganizamos a bagagem para abrir mais espaço, com cinco passageiros partimos para Cazombo por volta das 16 horas.



A viagem iniciou-se de maneira tranquila, a empresa brasileira, Queiros Galvão, esta asfaltando a estrada de Luau à Cazombo, mas só há cerca de 20 km asfaltado construído, a  obra está estimada para três anos.

No caminho para Kavungo tivemos a primeira oportunidade de aprender a usar o guincho que fica na frente do carro, pois ficamos atolados na estrada, precisamos de quase 20 metros de cabo de aço para alcançar uma pequena arvore onde foi nosso apoio, ela quase não suportou o peso e tivemos que segurá-la para não ser arrancada com a força do guincho. Depois deste batismo na lama seguimos viagem entre muitas outras lamas e burados.

Chegamos em Kavungo (Nana Candundo) às 23h40 e fomos acolhidos pelo Pe Lopes, pároco da paróquia de São Bento, que estava preparando o povo para celebração no domingo. Descarregamos algumas coisas que trouxemos para nossa casa com a ajuda de alguns jovens da comunidade. Q de inicio já demonstrava muita docilidade conosco.

 Por volta das 24 horas partimos para Cazombo, caminho de 62 km, mas já de difícil acesso devido ao inicio das chuvas. Logo nos primeiros quilômentros encontramos carros afundados no barro, tentamos ajuda-los, mas as cordas que amaravam o outro carro não eram fortes o suficiente para arrastar o carro, assim eles tiveram que ficar para trás, seguimos nosso caminho. Já com chuva era difícil distinguir na estrada as poças de agua que a qualquer momento poderiam se tornar traiçoeiras e nos afundar na lama, é necessário muita cautela e conhecimento para rodar nestas estradas...tivermos grande oportunidade de aprender com o nosso chofer, o senhor Bispo, um pouco as malicias das estradas angolanas...

Debaixo de muita chuva chegamos a missão São Bento as 03 horas, portanto quase 20 horas de viagem de Lwena a Cazombo, percorrendo 700km local onde os beneditinos fixaram residencial em tempos antigos e hoje é administrado pela diocese de Lwena...a vila de Cazombo ainda fica a 7 km da missão.

Fomos acolhidos pelas irmãs filhas do coração de Jesus, que já estão nesta missão desde 2005, que debaixo de chuva nos acolheram com alegria em sua residência...

Depois de longa viagem, acertar os aposentos, guardar bagagens e tomar o banho já estávamos perto das 04 horas quando fomos repousar.

No segundo dia, 14/01 de nossa estadia na missão São Bento celebramos a Santa Missa e fomos apresentados a comunidade local, primeira oportunidade de sentir de perto a espiritualidade e a ritualidade do povo angolano, foi emocionante ao nosso coração...

A tarde fomos ate a Vila do Cazombo para encontrar com a administradora do município, mas esta estava viajando,  percorremos um pouco para conhecer a vila...

Por volta das 16 horas iniciamos nossa viagem de volta a Kavungo, durante o dia podemos ver melhor as comunidades ao longo da estrada... Chegamos por volta das 19 horas e grande quantidade de pessoas veio nos abraçar e acolher com jeito típico do povo africano, nos encheu o coração de alegria e emoção...muitas pessoas trabalhando no preparo dos alimentos, jovens ensaiando as musicas da liturgia...muita animação. Por íamos todos nos acompanhavam.

Fomos dormir tarde, tivemos que organizar a roupa de cama com o que havia, pois ficaremos uns dias em Cazombo assim não levamos roupa de cama nem de banho, conseguimos localizar em nossas compras em Lwena um jogo de cama e algumas toalhas e ate tolha de mesa serviu de lençol e cobertores...

Dia de grande alegria para o povo de Deus, para diocese de Lwena e para paróquia de São Bento em Cazombo, pois é o dia da criação da paroquia de Santo Antonio do Kavungo e posse dos primeiros padres...

Acordamos com o coração cheio de alegria e com o barulho do povo nos arredores da casa em que estaremos residindo, muitas mulheres trabalhando para fazer o almoço a tempo para todos os que estavam nesta grande festa...

A celebração teve inicio as 9:30 horas grande procissão de entrada com corais, catequistas, leitores, acólitos e celebrantes Pe Luiz Claudio deoniano da Paroquia Santa Teresinha do Luau, Pe. Lopes e Pe. Manecas da missão São Bento, pelos Missionarios Sacramentinos Pe. Geraldo Magela Mayrink, Pe. João Lucio Gomes Benfica e Pe. Renato Dutra Borges e o presidente da celebração D. Jesus Tirso Blanco, sdb Bispo de Lwena ...saindo na rua, defronte da antiga escola, em direção da capela inacabada, celebração assim ao ar livre com sol sobre as cabeças...

Após a saudação inicial de Dom Jesus Tirso Blanco, bispo de Lwena, o Pe. Lopes leu o decreto de criação da Paróquia de Santo Antônio de Kavungo assim o povo que era numeroso reagiu com alegria a este fato... na sequência Pe. Lopes leu também a provisão de pároco Pe. Renato Dutra Borges, sdn e vigário paroquial Pe. João Lúcio Gomes Benfica, sdn da Paróquia de Santo Antônio...quando o povo também nos saudou com grande alegria e gestos típicos  da região...

Assim a celebração teve inicio como de costume seguindo a liturgia do Segundo domingo do tempo comum. O ato penitencial cantado em luvale com coreografias do local, também os cânticos de glória na mesma língua e com outras danças que enchem os olhos e o coração de quem participa.

A liturgia da palavra todo povo se silencia, há grande importância a palavra pois a cultura oral é muito valorizada. A primeira leitura foi proclamada em Luvale, a segunda em Lumda-Dembo (língua com mais inclinação para o inglês, por influencia da Zambia e onde temos as comunidades de Lovua, estavam presentes cerca de 60 pessoas que caminharam dois dias para estar na celebração, distante cerca de 70km, onde so se chega de motorizada (moto) passando por jangadas, pois não existem pontes ou caminhando. O evangelho foi proclamado em português e luvale.

Na homilia D. Tirso ressaltou a importância deste dia para diocese, a Igreja e nossa congregação... ressaltou também a importância da presença serviçal junto do povo, estar a serviço da igreja, todo cristão, deve se dedicar a servir com alegria a comunidade. Contou também a historia do cão-rei, onde o leão, rei das florestas morreu e precisavam de outro para reinar, assim foram procurando cada animal e um após o outro recusando ate chegar ao cão, este aceitou então colocaram nele a coroa, o manto, o cetro e toda pompa possível e começaram os festejos...depois de algum tempo de festa o cão começou a ficar com fome e vendo tanta comida sendo preparada foi aumentando ainda mais sua fome mas ninguém lhe dava e comer pois não estava em tempo, a fome foi ficando grande...o cão já estava salivando de vontade de comer aquelas galinhas assadas e outros pratos...de repente o rei deu um pulo deixou para tras toda pompa, abocanhou uma galinha assada e fugiu para o campo. Assim D. Tirso concluiu a importância do cristão participar e valorizar o baquete da palavra e da eucaristia que está para todos, não fazer como o cão rei que deixa tudo por um único pedaço de osso que lhe interessa.

D. Tirso ainda foi explicando a missão do padre na paroquia e a importância dos sacramentos e sua missão na comunidade...partilhar e formar o povo na Palavra de Deus, batizar os que desejam uma vida de seguimento a Jesus Cristo, celebrar a misericórdia e o amor de Deus no sacramento da confissão, celebrar e adorar a eucaristia todos os dias junto com o povo de Deus...

Após estas explicações D. Tirso recebeu nossa profissão de fé no credo niceno-constantinopolitano e renovamos nossas promessas sacerdotais, depois ofereceu cada símbolo destes sacramentos aos padres além de simbolicamente as chaves da paroquia (bom lembrar que a sede da paroquia não esta terminada, foi inicada pelo exercito português e deixada sem terminar, esta do mesmo modo desde 1975)...

Após acolhida destes símbolos D. Tirso apresentou os padres ao povo de Deus, nos conduzindo entre as pessoas e estas fazendo aclamações de alegria típicos da cultura local...

A liturgia seguiu seu curso normal. Gesto importante para o povo africano são as oferendas, é momento de grande louvação...oferecer dons a Deus para que ele nos envie se Espirito para nos proteger... As oferendas são feitas primeiros dos dons do pão e do vinho, depois ofertas em dinheiro e a seguir o que o povo pode ofertar...galinhas, mandioca, milho verde, mangas, bombo(bola de farinha de mandioca para conser o funge), batatas, gasosas (refrigerantes) sumo (suco de frutas)... depois destas ofertas há um canto de agradecimento onde todos demostram a alegria de poder oferecer algo a Deus. É contagiante o ritmo, a dança e a alegria do povo nas varias coreografias e o entusiasmo de todos.

O rito eucarístico transcorre de forma similar no do Brasil, diferente é que na oração eucarística não há participação da assembleia nas aclamações entre o mementos da oração os sacerdotes rezam só e o povo escuta.

Havia muitas pessoas na celebração, mas a quantidade de comunhão foi relativamente pequena.

Antes de concluir a celebração Pe. Manecas leu a ata de criação da paroquia e de posse dos padres, além de relatar o que aconteceu durante a celebração. Em seguida Pe. Lopes fez uma apresentação da região onde vamos missionar: Kavungo, Lovua e Caianda, explicando como se compões pastoralmente cada região destas. Desejou-nos êxito e fortaleceu o desejo de caminhar juntos com a paróquia São Bento de Cazombo de onde somos filhos...

No momento de agradecimento Pe. Geraldo Magela demostrou nossa emoção e alegria em estarmos presente nesta parcela do povo de Deus aqui na diocese de Lwena, falou do grande sonho de nossa congregação em estar presente em outras terras além das do Brasil, agradeceu a acolhida e nos estimulou no serviço missionário a este povo. Também os padres Renato e João Lucio fizeram suas primeiras palavras ao seu novo rebanho, ressaltando a alegria de estar aqui, que viemos para conviver, servir, pedindo que tenham paciência conosco para ir aos poucos mergulhando nesta nova realidade que nos acolhe, fomos acolhidos com muita alegria pelo povo.

Terminada a celebração os novos padres ficaram a frente do altar para receberem o abraço de acolhida dos que estavam presentes, ressaltamos a alegria das pessoas em nossos abraçar e acolher...havia presença de varias autoridades politicas, militares e de outras religiões...

Terminado os abraços, que não foram poucos, seguimos para o almoço e orientados por uma frase que nos acompanhou desde quando chegamos “por aqui senhor padre”, nos conduzindo nestes novos caminhos de missão.

O almoço foi partilhado com todos, muita comida... funge, carnes, massas e pra nossa alegria feijão e arroz...

A tarde foi chegando e muitas pessoas ainda estavam festejando, com certeza houve jantar também para todos os que estavam presentes

A noite chegou e um grande dia para nós e para este povo entra para história. É a Igreja que se aproxima é o Reino de Deus que vai se fazendo presente em todos os cantos da terra.

O dia começa novo, ainda muitas pessoas estão no ritmo da festa... fato interessante e que merece grande reflexão por nossa parte é que as pessoas que tinham vindo das comunidades de Lovua partiram cedo, mas ficou um grupo de seis pessoas esperando um dos membros que ficou doente quando chegou a Kavungo e teve que ficar internado no pequeno hospital onde as enfermeiras fazem as vezes dos médicos, este grupo ia esperar ate que o doente estivesse em condições de caminhar de volta pra casa.

Aproveitamos a manha para fazer os acertos finais com D. Tirso ele nos apresentou as algumas ações da diocese, datas, organização econômica e avaliamos o que ainda estava faltando em nossa casa; muita da mobília que a diocese comprou para colocar na casa ainda não havia chegado, mas estava para vir, a diocese disponibilizou a casa para três missionários, mas por enquanto vamos ser dois por um longo tempo, esperamos contar com mais um irmão para vivenciarmos esta grande missão a nos confiada.

Depois do almoço foram ralizados os preparativos para volta a Lwena dos padres Geraldo e Luis Claudio (até Luau) e de D. Tirso. Carro mais uma vez lotado, na despedida Pe. Geraldo demonstra sua confiança em nossa missão e nos estimula na vida religiosa e missionaria que estamos assumindo em nome de toda congregação. Também preparamos nossa bagagem para voltar para missão São Bento em Cazombo, onde moram os padres Lopes e Manecas e também as irmãs filhas do coração de Jesus;  Ir. Suzana (Filipinas), Ir. Mary (Papua-Nova Guiné), Ir. Berta (Indonésia) e Ir. Maria Jose (Brasil). O Toyota Land-Cruiser veio lotado, bagagens e 8 pessoas...além de dois cabritos que berravam o tempo todo ao logo dos 62 km que separam Kavungo da missão São Bento que ainda esta a 5 Km de Cazombo que é a capital do município de Alto Zambeze.

Esta terra precisa de muitos missionários e missionárias para testemunhar o amor, a misericórdia e a bondade de Deus autor de toda a vida. O amor a Deus precisa ser traduzido no amor ao próximo. Deus nos ama sem distinção: Temos que entender isto com gestos concretos de convivência fraterna.

Se é a primeira impressão que fica. Precisamos de muita força e paciência. Muita oração e fé. Que Deus não nos deixa faltar esses alimentos. Vivemos em poucos dias o que Pe Júlio Maria relata em seu diário missionário. È isto o espaço da missão! Que não nos falte a coragem do nosso Fundador.

Os primeiros dias em Angola foram interessantes, muita novidade, a linguagem que apesar de ser o português tem muitas diferenças de nosso português brasileiro além das línguas locais. O povo é muito alegre tem grande respeito pelos padres, religiosos e religiosas.



À primeira vista qual o retrato que se pode descrever da Igreja na África? As diferenças culturais refletem no jeito de ser Igreja?



A África é um grande e complexo continente, em Angola, que está na  África Austral, o pouco que percebemos a liturgia é similar a nossa, com algumas diferenças na ritualidade, mas em principio não se percebe muita diferença, a não ser nas respostas da oração eucarística que o povo não responde; porque não as tem. Na região que estamos morando, leste de angola, há muita influência da Zâmbia e do Congo Democrático assim a liturgia tem os cantos próprios da língua local e muita dança. A cultura reflete no jeito de ser Igreja, isto mostra a diversidade e universalidade da Igreja. Na diferença cultural celebra-se o mesmo mistério da nossa fé.



Já foi possível identificar qual será o maior desafio desta missão?



Nestes poucos dias o que parece ser o maior desafio são as línguas locais, poucas pessoas entendem o português, só os que tiveram oportunidade de ir à escola, que são poucas, haja vista que o país viveu por muito tempo em guerra, assim não tinham muitas oportunidades de estruturar um ensino de qualidade. Teremos que ter muita paciência e sensibilidade aguçada para não atropelar nada e dedicarmos na aprendizagem das línguas locais, sobretudo, Luvale e Lunda –Dembo.



Conte-nos um pouco de como os senhores atuarão pastoralmente e qual será a rotina durante esse tempo de missão?



Em curto prazo estamos na observação, sentindo de fato como se organiza esta Igreja local, grande virtude dos missionários é saber distinguir a hora da graça de Deus.  Portanto, nossa rotina será de ouvir, ouvir e  ouvir...ver, ver e ver. Faremos vistas às comunidades, conheceremos as pessoas mais de frente das igrejas – comunidades, aqui são chamados de catequistas.

Em médio prazo vamos entrar na dinâmica de formação dos catequistas locais que já esta bem iniciada, terá os cursos de base, formação humana e outros que surgirem como necessidade. E em longo prazo vamos trabalhar a dimensão bíblica na formação das pessoas e famílias a partir dos grupos de reflexão, pois esta é a menina dos olhos de qualquer programa de evangelização.

Deus chama, Ele mesmo indica o que e como fazer o que precisa ser feito. A vivência da fé marcada pelas experiências de vida enriquecem os discípulos do Senhor. Nunca se sabe como será a missão, sabemos que ela precisa acontecer. São obra e benção de Deus!



Como o cristianismo convive com as tradições locais? A diversidade étnica tem reflexos na moral, na liturgia, na pastoral?



A cultura africana é milenar, diferente da nossa brasileira que perdemos durante a colonização com a erradicação da maioria dos indígenas. Em África a cultura de cada tribo permaneceu, assim a Igreja adaptou-se e acolheu o que é próprio entre as diferentes etnias. Porém, há um respeito muito grande pela liturgia, os coroinhas são muito bem preparados, os cantos ensaiados, valorização da eucaristia também é muito grande. A pastoral tem dificuldades pelas distancias e pela falta de estruturas, a linguagem, o processo formativo dos agentes de pastoral, há um grande trabalho com os catequistas, que aqui tem também o dever de coordenar a comunidade, assim toda liderança da comunidade se da o nome de catequista, que também ajudam na homilia fazendo uma síntese na língua local depois da pregação do padre, é algo muito interessante de vivenciar na comunidade, causa uma grande emoção no coração do missionário. Na questão moral ainda não tivemos oportunidade de sentir como se dá no dia a dia das pessoas, mas ao que parece não há muitas diferenças na doutrina da Igreja que é universal.



Do que o senhor está sentido falta ou seja qual a grande diferença?



A grande diferença está nos meios de evangelização, somos acostumados no Brasil com muitas facilidades de material pastoral, xerox, energia elétrica, vídeos, encontros nos fins de semana. Aqui somos privados disto. Mas a criatividade nasce no exercício da missão, assim,  estamos nos adaptando em nova realidade, já sabíamos destes desafios antes de chegar por estas terras. É claro que quando a gente chega é o sentimento é diferente. Mas vamos superando aos poucos.



Sabemos que a missão ad gentes possui muitos desafios. Como foi a preparação do senhor no Brasil?



A missão além-fronteiras (missionários enviados para viver entre pessoas que já conhecem o cristianismo mas que por fatores diversos estão afastados da vida da Igreja que é diferente da missão Ad Gentes que Sao missionários enviados a pessoas que nunca ouviram falar sobre Jesus Cristo) faz parte da Igreja desde os tempos apostólicos, assim todo missionário esta aberto a esta necessidade da Igreja

A congregação nos deu muita oportunidade para esta preparação, primeira ação foi nos distanciar um pouco da administração paroquial assim estar mais livres para fazer cursos, leituras e um melhor cultivo de nossa espiritualidade. Segundo nos permitir participar de curso de aprofundamento da vida religiosa que a Igreja no Brasil oferece para nosso amadurecimento, participamos do curso da conferência dos religiosos do Brasil CRB chamado PROFOLIDER programa de formação de liderança e também participamos do curso promovido pela Conferencia dos Bispos do Brasil CNBB através do Centro Cultural Missionário CCM o curso Ad Gentes que trabalha formação de missionários brasileiros enviados em missão além fronteiras, tivemos também a oportunidade de visitar algumas paroquias em que nossa congregação esta presente para apresentar este projeto missionário e assim partilhar um pouco destes desafios.

Nos preparamos para sermos "angolanos" no meio de angolanos e nao viver como brasileiros entre angolanos. A missão além fronteiras tem seu preço, nao conseguiremos ser "angolanos" como os angolanos pois já carregamos grande carga cultural, assim perdemos um pouco de nossa identidade como brasileiros e nao conseguiremos ser angolanos; devemos viver como bons hospedes na "casa" de nossos anfitriões, com tudo que eles tem de virtudes e de limites, pois as mesmas alegrias e esperanças, as tristezas e angustias desde povo também serão as nossas. Assumir outra cultura é assumi-la como um todo; as conquistas sociais, as políticas publicas que a sociedade brasileira possui sao frutos de nossa construção histórica. Ao ir para outra cultura devemos ter a consciência de perder, deixar estes direitos adquiridos.



Se fôssemos eleger...o maior desafio é...(qual?)



O maior desafio é ser uma presença que não gere dependência.



O senhor tem um já programado para atuar nesta missão?



A primeira atitude do missionário é desprogramar-se, esvaziar-se dos métodos e práticas para estar aberto ao novo e acolher com alegria o mistério que cada cultura manifesta para humanidade. Não temos ouro nem prata o que temos é o que oferecemos; Jesus Cristo e seu discipulado.



A palavra está livre. O senhor fica livre para tratar de assuntos que não perguntamos nesta entrevista, fique à vontade.



A vocação missionaria é de toda Igreja, como canta Zé Vicente “é missão de todos nós...”, Nossa congregação, Missionários Sacramentinos de Nossa Senhora, temos a alegria de oferecer a Igreja um pouco de nossa espiritualidade e carisma. Celebramos 100 anos da chegada do Pe. Julio Maria ao Brasil, assim nos sentimos devedores do evangelho a outras culturas, por isto este esforço missionário de nossa congregação. Já que a missão é de todos nós, queremos também contar com leigos, voluntários que possam vivenciar e doar-se a este povo um pouco da expressão de fé, trabalho, vivencia comunitária e testemunho de uma vida evangélica. Claro que vamos levar um tempo para atingir este objetivo de trazer leigos aqui para Kavungo, mas faz parte de um grande projeto da congregação e uma necessidade pastoral também.

Desejamos a toda nossa forania de Ipanema e a nossa Igreja mãe, Diocese de Caratinga, já que nossa família é desta diocese, Mutum e Durandé, que sejam bons missionários e missionárias visitando e vivenciando os valores da Palavra de Deus entre os amigos, vizinhos, no trabalho e na família. Somente com a radicalidade de nosso testemunho de fé vamos concretizar o Reino de Deus.

Nas vossas orações, rezem a Deus por nós aqui. Pela oração muitas pessoas receberam graças e foram felizes em seus trabalhos. Que com a oração nós todos permaneçamos em sintonia e co-responsáveis pela missão evangelizadora em toda a terra.

Portanto, CORAGEM, Deus te chama também!



Podem entrar em contato conosco via correio pelo endereço:



Aos cuidados de

Diocese de Lwena

Rua Saidy Mingas

C aixa Postal 88, Lwena, Moxico - Angola

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Africae Munus

Bento XVI: reconciliação dentro e fora da Igreja
Ao assinar a Exortação apostólica pós-sinodal “Africae Munus” [O compromisso da África], o Papa Bento XVI exortou a não abandonar jamais a busca da paz e da reconciliação necessárias no continente africano e em toda a Igreja.
Na Basílica da Imaculada Concepção de Ouidah, no Benin, perante bispos de diferentes lugares da África, o Santo Padre disse que “hoje [19 de novembro], com a assinatura da Exortação “Africae Munus”, conclui-se a celebração do evento sinodal. O Sínodo deu um impulso à Igreja Católica na África, que rezou, refletiu e debateu sobre o tema da reconciliação, da justiça e da paz”.
Depois de assinalar que a assembleia sinodal de 2009 se viu enriquecida pela Exortação apostólica pós-sinodal “Ecclesia in Africa”, do Beato João Paulo II, Bento XVI recordou que este documento “sublinhou com força a urgência da evangelização do continente, que não pode separar-se da promoção humana. Por outra parte, desenvolveu-se nela o conceito de Igreja-família de Deus. Este conceito produziu muitos frutos espirituais para a Igreja Católica e para a atividade de evangelização e de promoção humana que ela realizou a bem da sociedade africana no seu conjunto”.
Com efeito, disse o Papa, “a Igreja é chamada a reconhecer-se cada vez mais como uma família. Para os cristãos, trata-se da comunidade dos crentes que louva a Deus Uno e Trino, celebra os grandes mistérios da nossa fé e anima com a caridade as relações entre as pessoas, os grupos e as nações, independentemente das respectivas diferenças étnicas, culturais e religiosas”.
Bento XVI também ressaltou que “uma Igreja internamente reconciliada entre todos os seus membros poderá tornar-se sinal profético de reconciliação em nível da sociedade, de cada país e do continente inteiro. São Paulo escreve: ‘Tudo isto vem de Deus, que nos reconciliou consigo por meio de Cristo e nos confiou o ministério da reconciliação’”.
O Pontífice ressaltou que “é preciso não cessar jamais de procurar os caminhos da paz. Esta é um dos bens mais preciosos. Para alcançá-la, é necessário ter a coragem da reconciliação que nasce do perdão, da vontade de recomeçar a vida comunitária, da visão solidária do futuro, da perseverança para superar as dificuldades”.
“Os homens, reconciliados e em paz com Deus e o próximo, podem trabalhar por uma justiça maior no seio da sociedade. É preciso não esquecer que a justiça primeira é, segundo o Evangelho, cumprir a vontade de Deus. Desta opção de base, derivam inúmeras iniciativas que visam a promover a justiça na África e o bem de todos os habitantes do continente, principalmente dos mais carenciados que precisam de emprego, escolas e hospitais.”
Finalmente o Papa exortou: “África, terra de um Novo Pentecostes, tem confiança em Deus! Animada pelo Espírito de Jesus Cristo ressuscitado, torna-te a grande família de Deus, generosa com todos os teus filhos e filhas, agentes de reconciliação, de paz e de justiça. África, Boa Nova para a Igreja, torna-te isto mesmo para o mundo inteiro!”

Fonte: ACIPrensa

africae munusBento XVI: reconciliação dentro e fora da Igreja Ao assinar a Exortação apostólica pós-sinodal “Africae Munus” [O compromisso da África], o Papa Bento XVI exortou a não abandonar jamais a busca da paz e da reconciliação necessárias no continente africano e em toda a Igreja. Na Basílica da Imaculada Concepção de Ouidah, no Benin, perante bispos de diferentes lugares da África, o Santo Padre disse que “hoje [19 de novembro], com a assinatura da Exortação “Africae Munus”, conclui-se a celebração do evento sinodal. O Sínodo deu um impulso à Igreja Católica na África, que rezou, refletiu e debateu sobre o tema da reconciliação, da justiça e da paz”. Depois de assinalar que a assembleia sinodal de 2009 se viu enriquecida pela Exortação apostólica pós-sinodal “Ecclesia in Africa”, do Beato João Paulo II, Bento XVI recordou que este documento “sublinhou com força a urgência da evangelização do continente, que não pode separar-se da promoção humana. Por outra parte, desenvolveu-se nela o conceito de Igreja-família de Deus. Este conceito produziu muitos frutos espirituais para a Igreja Católica e para a atividade de evangelização e de promoção humana que ela realizou a bem da sociedade africana no seu conjunto”. Com efeito, disse o Papa, “a Igreja é chamada a reconhecer-se cada vez mais como uma família. Para os cristãos, trata-se da comunidade dos crentes que louva a Deus Uno e Trino, celebra os grandes mistérios da nossa fé e anima com a caridade as relações entre as pessoas, os grupos e as nações, independentemente das respectivas diferenças étnicas, culturais e religiosas”. Bento XVI também ressaltou que “uma Igreja internamente reconciliada entre todos os seus membros poderá tornar-se sinal profético de reconciliação em nível da sociedade, de cada país e do continente inteiro. São Paulo escreve: ‘Tudo isto vem de Deus, que nos reconciliou consigo por meio de Cristo e nos confiou o ministério da reconciliação’”. O Pontífice ressaltou que “é preciso não cessar jamais de procurar os caminhos da paz. Esta é um dos bens mais preciosos. Para alcançá-la, é necessário ter a coragem da reconciliação que nasce do perdão, da vontade de recomeçar a vida comunitária, da visão solidária do futuro, da perseverança para superar as dificuldades”. “Os homens, reconciliados e em paz com Deus e o próximo, podem trabalhar por uma justiça maior no seio da sociedade. É preciso não esquecer que a justiça primeira é, segundo o Evangelho, cumprir a vontade de Deus. Desta opção de base, derivam inúmeras iniciativas que visam a promover a justiça na África e o bem de todos os habitantes do continente, principalmente dos mais carenciados que precisam de emprego, escolas e hospitais.” Finalmente o Papa exortou: “África, terra de um Novo Pentecostes, tem confiança em Deus! Animada pelo Espírito de Jesus Cristo ressuscitado, torna-te a grande família de Deus, generosa com todos os teus filhos e filhas, agentes de reconciliação, de paz e de justiça. África, Boa Nova para a Igreja, torna-te isto mesmo para o mundo inteiro!” Fonte: ACIPrensa

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Os 10 “empurrões” do Espírito Santo - Dom Luiz Augusto Castro.



Os 10 “empurrões” do Espírito Santo
Dom Luiz Augusto Castro:

01  Para fora: quando o Espírito nos toca, nos empurra para fora das nossas fronteiras.

02  Para todos: não existem mais fronteiras religiosas ou culturais. As sementes do verbo estão espalhadas em todas as culturas e expressões.

03  Para dentro: leva-nos para dentro da Igreja para construirmos a comunhão, unidade, força da missão.

04  Para o fundo: faz-nos entrar em profundidade, vivendo uma espiritualidade missionária que deve estar aberta a todas as espiritualidades, colhendo o novo.
05  Para o lado: faz-nos olhar quem está ao nosso lado, para vencer o “câncer” da exclusão social, vivendo e construindo a solidariedade.
06  Para trás: faz-nos olhar o passado para retomá-lo com coragem, recuperando nossa história, nossas raízes.

07  Para frente: torna-nos pessoas de esperança, olhando para frente sem desanimar.
as plantas, animais, a mãe terra. Ela merece a nossa atenção

 08  Para baixo: faz-nos olhar a natureza, a criação, e respeito, pois está cheia de dignidade.

09  Para cima: é o convite à santidade, pois o verdadeiro missionário é santo.

10  Para além-fronteiras: é missão não só “do” Continente, mas “desde” o nosso Continente para todas as nações. Só o fogo do Pentecostes pode nos levar a cumprir tudo isso.

domingo, 16 de outubro de 2011

SER MISSIONÁRIO É...


COMO HÓSPEDE NA CASA DOS OUTROS
            O Ser hóspede cria uma situação de dependência em relação a outro povo e outra cultura. É obrigação do hóspede apreciar e aceitar o que é oferecido, qualquer que seja a oferta. Não cabe a ele selecionar e mudar. Vive a gratuidade de ser acolhido, de ser recebido, de ser alimentado e de ser incluído no mundo do outro. Sua casa é casa do outro, não lhe pertence. É casa emprestada na morada do outro. É casa sagrada. Entra como hóspede nas relações familiares e grupais, procurando ocupar o lugar que lhe cabe sem invadir o espaço do outro. O ritmo da vida lhe é imposto pelos parâmetros culturais, abrindo caminho nas relações já estabelecidas. O hóspede não incomoda, não é arrogante e orgulhoso. É hóspede porque recebe, na gratuidade, o dom de ser acolhido.
            O hóspede recebe a hospitalidade e torna-se amigo. Não vai para outro povo e outra cultura para ser venerado. Ele aceita a riqueza da cultura, a beleza da língua, o gosto da cozinha e a amizade de quem o hospeda.
            O hóspede cria sempre um sentido de mal-estar e abala a normalidade das relações do outro. Ainda não é familiar e quase nunca vai ser. Sua história de vida e sua visão de mundo não bate com a história de vida do grupo. Ele precisa pisar devagar sobre um terreno úmido, movediço ou duro. A maneira de colocar o pé e os dedos no chão diferenciam seu jeito de caminhar do outro. O hóspede é sempre uma ameaça, um intruso, alguém que põe em perigo a tranqüilidade e a serenidade da identidade já estabelecida. A dureza da pele, os calos nos pés, o jeito de locomover-se, o movimento de suas mãos é diferente e o outro o vê com apreensão e medo. Através da relação, os medos são espantados, superados e negados. Ou talvez, os mesmos medos são exacerbados, aumentados e engrandecidos. É preciso muito tempo para que o hóspede seja aceito, mas quase nunca chega a ser membro da família.
            O Ser hóspede não é fácil, mas é uma necessária condição do missionário, quando passa de uma cultura a outra. É sobre essa base que devem ser estabelecidos novos relacionamentos e ocupados os espaços permitidos. É nessa situação de hóspede que o missionário comunica e apreende, ensina e partilha, transmite e recebe, sabendo que o Espírito de Deus antecede sua chegada.
            Quem parte para missão é para vida toda, com disposição para dar tudo de si, não contar os dias, não é para fazer experiência, é doar a vida, o projeto missionário sim tem um tempo para vigorar e para sair. Missão é partir para ser hospede na casa do outro dar e receber. (Mc 6,10; At 9,43; At 11,3; At 18,7)
            A ação missionária nasce sempre de uma compaixão, que por sua vez surge de uma visão e de uma escuta (Ex 3,7-8; Mt 9,36). É preciso, portanto, sair de si mesmos para pôr-se nessa profunda atenção da realidade. Só uma Igreja articulada em torno do princípio da comunhão e não da instituição, da dimensão eqüitativa do Povo de Deus e não da hierarquia, poderá ser “sinal e instrumento de reconciliação e paz para nossos povos” (DAp 162). Imediatamente, essa “comunhão e participação” deverá se refletir ad extra, na comunhão entre Igrejas no mundo inteiro. Nessa prática fundamental para sua identidade, a Igreja é chamada a sair de suas relações e a refazer continuamente novas relações.
            Tire as sandálias dos pés, porquê o lugar onde você está pisando ‘e um lugar sagrado. (Ex 3,5). As sandálias representam o que está amoldado a nosso pé, é a forma que acompanha nosso feitio, nossos calos. A ordem: tirar as sandálias significa retirar de ti o habitual que te envolve e reconhecer que o lugar onde estás nesse momento é sagrado. Porque não há lugar ou momento que não seja sagrado.
Habituamo-nos a determinados padrões e condutas que se tornam nosso sapato. E é com ele que caminhamos pela vida.
            O sapato representa a proteção indispensável entre o ser e seu meio. Nesse processo, há uma importante interação entre os pés e o sapato. Este nos protege pela sola, mas para que cada passo seja confortável ao pé e para que ele não se desapegue é preciso que o corpo do sapato vá se ajustando à nossa forma.            O chão é pavimento da vida e ele não se ajusta a nossa pisada. De tanto em tanto, temos que retirar o sapato e tocar o solo com a planta do pé.
            Aeromoças dizem: cuidado ao abrir os compartimentos de bagagem, pois os objetos podem ter se deslocado durante a viagem.
            Na nossa viagem nada estará no lugar em que deixamos. E as bagagens, que simbolizam o desejo de permanência, a vontade de nunca termos viajado e termos nos exposto as incertezas , essas são as que nunca saem ilesas. Elas se movem e em breve, o que parecia indispensável será mais que supérfluo, tornando–se um empecilho a peregrinação.
Mesmo numa terra prometida que tenha tantas bênçãos e avanços em relação à terra deixada, não é possível reproduzir certas coisas deixadas para trás.
            A terra de onde se parte é a terra onde se viveu e não há substituto ao que foi vivido. Mesmo em condições melhores, mesmo em circunstâncias mais apropriadas à nossa visão de mundo, o que se viveu é parte de uma terra deixada.
            A mala é o patrimônio mínimo que carregamos conosco. Ela é o nosso pequeno poder em terras de somos desprotegidos. Assim na própria vida, vamos aprendendo que a segurança maior não esta nas coisas ou nos objetos, mas na interação.
            O peregrino não precisa de bagagem porque o outro o provera. Sua atitude não deve ser classificada como benevolente porque há uma relação básica na vida que normalmente nos passa despercebida: trata-se da troca entre a Prosperidade Interna e a Prosperidade Externa.
            Na jornada temos a constante troca, nunca um ato unilateral de benevolência do anfitrião. Na verdade, o maior agraciado nessa troca é na maioria das vezes, o anfitrião. Ele oferece sua Prosperidade Externa, seja na forma de abrigo, alimento ou conselho, e recebe em troca a força e a novidade da Prosperidade Interna de quem está em viagem.
            A Prosperidade Interna é o maior patrimônio do peregrino e ele poderá permutar seus bens internos por bens externos.
            Ditado sufi: “Minha vida toda fiquei batendo na porta esperando que abrissem sem saber que eu estava batendo pelo lado de dentro.”

Porque ser hospede na casa o outro?:
            “A Igreja é por sua natureza missionária” (AG 2. “A missão tem a sua origem na iniciativa do amor de Deus, Uno e Trino. Portanto, a missão tem a sua origem na Santíssima Trindade e é anterior à Igreja”. Esse “amor-fonte”, que é relação configurada através da missão de Deus (missio Dei). Deus, que é amor, estende através de seu Filho e do Espírito Santo as suas duas mãos à humanidade.
            A salvação é oferecida a todos os homens (cf.RM 10). A Igreja é enviada a anunciar e testemunhar o Evangelho como Jesus fez, enviando os seus Apóstolos a todo o mundo tal qual ele tinha sido enviado pelo Pai (Jo 20,21, dando-lhes este mandamento: “Ide, pois, fazer discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos prescrevi” (Mt 28,19ss). “Ide por todo o mundo, proclamai a Boa Nova a toda criatura” (Mc 16,15).  A Igreja é enviada a todos os povos como uma “tarefa” clara de “fazer discípulos”.
            O decreto Ad Gentes traça um percurso em 3 etapas essenciais da ação missionária, de fato, são elementos (ferramentas) práticos da missão.
a)                  O testemunho/diálogo (AG 10-11).
b)                 O anúncio/conversão (AG 13-14).
c)                  A formação da comunidade cristã (AG 15ss).
Missão universal:
“Com a formação da nova comunidade, a missão da Igreja não pode parar e se acomodar, mas tem que partir novamente de um novo patamar”. É o documento de Puebla que aponta para essa reflexão. Evangelii Nuntiandi e a Redemptor Missio retomam, mais ou menos, o mesmo esquema do Ad Gentes, sobre o processo da missão [testemunho/diálogo, anúncio/conversão, formação de comunidade], Puebla acrescenta outro elemento: a missão. Em outras palavras, uma comunidade não pode considerar-se “evangelizada” até que ela mesma não é enviada e não envia seus missionários a todos os povos (cf. Puebla 356-361).
            Um dos maiores desafios que as comunidades missionárias enfrentam hoje é o de preparar as pessoas para uma missão intercultural, através de uma orientação que capacite o missionário para ser participante ativo na transmissão de significado através de barreiras culturais. O missionário cruzará a barreira cultural somente através de uma passagem que se poderia descrever como um deserto árido ou "terra de ninguém". O chamado para continuar a missão de Jesus no mundo de hoje implica a transmissão do significado, o sentido da vida em seu nível mais profundo.
            Há um paradoxo neste chamado à missão. A própria pessoa que é chamada a participar ativamente na transmissão do sentido deve atravessar um processo no qual experimenta uma crise profunda que invade seu próprio mundo de identidade pessoal. Para responder à missão em seu nível mais profundo, eu, como missionário, devo estar disposto a atravessar um período de crise de sentido, um tempo de "sem sentido". A cruz da barreira cultural começa para o missionário quando, como Abraão, parte ao chamado de Deus, para uma terra que lhe será indicada. É preciso cruzar um deserto estéril na fronteira da missão.
            O processo de inculturação é sempre uma peregrinação para dentro de si mesmo. Quanto mais capaz de experimentar novas e diferentes dimensões da diversidade humana, mais a pessoa aprende de si mesma. O processo de, entrar em outra cultura requer a disposição para partir numa viagem, tanto interior como exterior.
O que levar nessa viagem interior e exterior?
Consigo viver como hospede?Por que?
Estou preparado para ajudar o povo de Deus a fazer este processo de evangelização onde vivo minha missão?Como?