"Por Deus, tenham um blog!" Papa Bento XVI


Coragem, Levanta-te! Jesus te Chama!


terça-feira, 27 de maio de 2014

A missão cresce na direção da pessoa e do mundo


A missão cresce na direção da pessoa e do mundo.

“Kumona njamba, kuenda, hukulwonoko”

(Para ver elefantes é preciso viajar, não basta ter idade avançada.)

 

“Jesus andou pelo mundo fazendo o bem a todas as pessoas...” (At 10,18)

 

Deus percebe a necessidade da humanidade e suscita pessoas para oferecer a resposta esperada ou reconduzir as pessoas ao “caminho” dos mandamentos divinos, cabe ao ser humano ouvir o chamado e responder afirmativamente, saindo de si e doando-se ao outro em qualquer lugar do mundo para anunciar as maravilhas que Deus realiza na sua própria existência. (At 2, 5-13)

Toda missão é itinerante e colhe frutos na perseverança, necessita presença, assumir um “lugar” histórico e um contexto cultural (At 17, 22-31). A referência é o Evangelho de Jesus Cristo. A missão é maior, não está limitada a determinados destinatários ou realidades culturais. A messe é grande e fica maior a cada pessoa que acolhemos no Batismo e a cada comunidade que fundamos, pois a missão cresce na direção da pessoa e do mundo!

O povo angolano é sábio quando afirma: “Husulila tchifulchi tunamonoho, hasulila uthu kutwamwenho” (Onde a terra acaba vemos, onde acabam as pessoas não o vemos)

Os limites da terra nós sabemos, mesmo assim devemos avançar para os confins do mundo, os limites do ser humano ainda são desconhecidos... o Evangelho deve então penetrar as estruturas e culturas onde vive o ser humano, motivando para o crescimento em comum (Mc 16,15).

Aprofundar o mistério da fé e a doutrina cristã a todo batizado, encantá-lo com a vivência do Reino de Deus e ainda provocar o efeito multiplicador é nosso desafio, pois devemos dar condições para que todo batizado persevere na sua missão com alegria e itinerância. (At 8, 26-40)

Não podemos nos acomodar com os batismos que celebramos, com as comunidades que fundamos; devemos proclamar e construir o Reino de Deus, a itinerância não é só percorrer caminhos, mas buscar formas, métodos, dinâmicas para aproximar as pessoas do Evangelho e o Evangelho das pessoas (1Cor 11, 17-26). Sustentar nesta convicção de que se realiza algo bom e necessário com as pessoas que convive e no lugar onde está é o que alimenta a perseverança.

Vivemos numa pequena comunidade com cerca de 30 mil habitantes, região da paróquia Santo António (comunas de Cavungo, Lóvua e Caianda) numa área de aproximadamente 22 mil km2 dando uma média de 1,36 pessoas por Km2... área vasta e pouco habitada, o cristianismo ainda é nascente, pois ainda não penetrou no cerne da cultura, por isso minoritário. Batizamos 798 pessoas e fundamos 08 comunidades de um total de 29 comunidades. Orientar as pessoas na sabedoria que está na Palavra de Deus e na tradição cristã tem sido nosso trabalho. Usamos o método de reunir as pessoas para estudar a Bíblia nos grupos de reflexão e ainda motivar as famílias para que a tarde, quando estão em volta da fogueira, rezarem o rosário.

A necessidade do Povo de Deus é gritante. Com espírito de amor e sacrifício assumimos em comunhão com nossa congregação outra área missionária vastíssima, a paróquia de São Bento, compondo assim todo município do Alto Zambeze, cerca de 48 mil km2.

Neste ano de 2014, acolhemos duas missionárias, Ir. Dorinha e Ir. Vininha, Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora do Amparo. É a providência Divina, pois a missão acontece mesmo na direção das pessoas e do mundo.

Do lugar onde estamos contemplamos a dimensão do Reino de Deus que anunciamos e a comunhão do Povo de Deus que promovemos. Encantar as pessoas para o seguimento de Jesus Cristo é desafiante.  A itinerância pode se tornar uma fuga pela incapacidade de perseverar nestes desafios, é a tentação na missão, seja local, além fronteiras ou ad gentes. Superar esta tentação exige vivência fraterna, paciência histórica e clareza na percepção da missão que se realiza entre as pessoas e no mundo (Mc 4, 3-9).

Vivemos um tempo de graça na diocese de Lwena, pois nosso bispo Dom Jesus Tirso Blanco, convocou toda diocese para reflexão através do sínodo diocesano, oportunidade de testemunhar a unidade e a corresponsabilidade da Igreja Povo de Deus. Este sínodo é uma necessidade, pois, nas palavras de nosso bispo:  “A nossa Diocese, depois de um período inicial de grande expansão, viveu um tempo caracterizado não só pela destruição ou grave deteriorização de mais de sessenta das suas estruturas, mas também pela dispersão de inúmeras comunidades por causa das guerras de independência e sobretudo pela guerra fratricida que assolou o país todo e muito particularmente a nossa província. Nessa altura, houve uma diminuição drástica de missionários e uma dispersão notável de muitos fiéis. Foi um período amargo da nossa história, mas também temos que reconhecer e agradecer pastores e fiéis, principalmente os catequistas, que mantiveram viva a chama da fé do nosso povo.

Com o advento da paz foi possível a reinstalação das populações nos locais de origem e a abertura de muitas missões; trabalho feito com muito sacrifício e heroísmo. Actualmente, após mais de dez anos de paz, vivemos um tempo privilegiado: há liberdade religiosa, que nem sempre existiu no passado, e, mesmo com as dificuldades inerentes ao estado dos caminhos, é possível chegar até aos locais mais recônditos da nossa extensa Diocese.

Apesar destes sinais positivos, não nos podemos iludir: Angola tem 522 anos de evangelização e Moxico apenas 80, boa parte deles vividos em conflitos armados, com a consequente carência de missionários e de condições propícias para a tarefa da evangelização.  Por isso não é de admirar que o nosso território tenha uma das percentagens mais baixas de católicos a nível nacional.”

Que a exemplo de Jesus que tendo amado os seus que estavam no mundo amo-os até o fim (Jo 13,1) e que a atitude apressada de Maria indo ao encontro de Isabel para comunicar e celebrar as maravilhas de Deus (Lc 1, 39-40), motive cada batizado a dar passos largos e decididos na direção da pessoa e do mundo, evitando o risco de ficar a vangloriar-se da idade avançada sem nunca ter visto um “elefante”.

 
Pe. Renato Dutra Borges, SDN
 

domingo, 16 de março de 2014

KWENDA HAMWE

SÍNODO SOBRE A EVANGELIZAÇÃO


ANÚNCIO DO SÍNODO DIOCESANO DE LWENA
1.      Caríssimos irmãos e irmãs em Cristo: 2013 é um ano que ficará marcado na história da Diocese de Lwena: nele celebramos os primeiros 50 anos de Diocese, o nosso Jubileu, comemoraremos em breve os 80 anos de evangelização no nosso território e encerramos hoje o Ano da Fé vivido a nível da Igreja Católica no mundo inteiro.
2.      E também nesta Eucaristia quero anunciar a realização do primeiro Sínodo Diocesano.
3.      “Sínodo” é uma palavra um tanto pomposa. Recordo nos últimos 25 anos os Sínodos de Benguela e Luanda.
OS SÍNODOS DIOCESANOS: PASSADO E PRESENTE
4.      Que é um “Sínodo Diocesano”? A palavra “Sínodo” vem da língua grega. Nessa língua “caminho” se diz “ódos” e a nossa preposição “com” diz-se “sin”. Dali a palavra “Sínodo” significa “caminho-com”, caminho em comum, caminhar com os outros, caminhar juntos: Kwenda Hamwe. A língua grega era falada nas primeiras comunidades cristãs, sabemos que é a língua na qual estão escritos os evangelhos.
5.      Desde os primeiros tempos da Igreja os Bispos convocavam assembleias, a começar por Jerusalém[1] para dar respostas às novas situações. E deram o nome de “sínodos” a estas assembléias.
6.      Desde os primeiros séculos, os sínodos foram um dos meios através dos quais os bispos “movidos pela caridade fraterna e pelo zelo da missão universal confiada aos Apóstolos, uniram as suas forças e vontades para promoverem o bem comum e o de cada uma das igrejas”[2]. O mesmo Concílio Vaticano II, que acabamos de citar, deseja que o Sínodo “retome novo vigor, para se prover mais adequada e eficazmente ao incremento da fé e à conservação da disciplina nas várias igrejas, segundo as exigências dos tempos”[3].
7.       Inspirados e motivados por este desejo, não só empregamos a palavra “sínodo”, mas queremos viver o seu espírito.  Os sínodos expressavam um modo de compreender, de sentir, de viver e realizar a igreja. Assim, convocar o primeiro sínodo da Diocese de Lwena supõe um modo particular que eu tenho de compreender a igreja e meu ministério nela e para ela. E um modo de animar e motivar os padres, missionários/as e leigos para que se sintam igreja e  proclamem essa identidade com veemência: “eu sou igreja, tu és igreja, somos a igreja do Senhor”. E por isso tudo quanto é Igreja nos pertence, não nos é alheio.
8.      Tudo na Igreja nos diz respeito: alegra-nos ou causa dor, consola ou desorienta, entusiasma ou nos coloca em crise, mas não nos deixa indiferentes. O Sínodo não é apenas uma série de reuniões para decidir alguma coisa, como se tratasse de uma assembléia periódica. É, sim, um evento no Espírito Santo, para escutar a Palavra, para perguntar a Deus  e iluminar a nossa realidade, por onde devemos ir, o que devemos mudar, como nos devemos converter.
UM CONVITE VEEMENTE
9.      O Sínodo não é uma reunião contra alguém: padres contra madres, leigos contra padres, movimentos contra comunidades, comunidades contra catequistas; pelo contrário, é um momento de comunhão para ajudar o Bispo Diocesano a Governar a Diocese[4], assumindo cada um/a sua vocação, que nasce do baptismo, dom de Deus, e que é completado com outras graças que direccionam o primeiro chamamento: o matrimónio, o sacramento da ordem, a profissão religiosa, a pertença a uma comunidade cristã, etc.
10.  Todos somos igreja, todos somos chamados por Deus Pai a viver em comunhão com Cristo e entre nós, animados pelo mesmo Espírito, que é o laço da unidade e é quem reparte os dons e carismas, que são diferentes, mas não ocasião para vaidade e divisão, mas para o serviço humilde em benefício de todo o Corpo de Cristo.
11.  Viver em atitude sinodal é participar dinâmica e corresponsavelmente na vida e missão da Igreja, é construir e reconstruir cada dia a comunhão fraterna pela gratuidade e o perdão e alargar essa humanidade reconciliada em círculos concêntricos cada vez mais amplos: comunidade eclesial, família, ambientes de trabalho, bairro, Municípios, sociedade em geral. 
12.  A finalidade do Sínodo, é pois, prestar um auxílio ao Bispo no exercício da função que lhe é própria, de guiar a comunidade cristã.
Verificamos muitos sinais positivos quanto à evangelização e graças a Deus vivemos em comunhão, já entramos no dinamismo da comunhão trinitária, que é causa, exemplo e meta da nossa comunhão. Mas ainda não chegamos à perfeição no amor. Ainda somos um povo que caminha entre consolações e dores, muitas vezes profundas, no território da Província de Moxico. Esperamos
e trabalhamos para que venha o Reino de Deus em plenitude, e rezamos: “Vinde, Senhor Jesus”. Estamos em “Sínodo”, a caminho.
13.  Por isso faço a todos um convite veemente a participar, a sentir-se membro do Sínodo, com atitudes positivas, construtivas para o crescimento do corpo de Cristo nesta amada terra de Moxico
EUCARISTIA, SÍNODO E MISSÃO
14.  A celebração eucarística é uma expressão clara e eficaz da realização da igreja sinodal, que é, ao mesmo tempo, comunitária, servidora e missionária. O sacramento do Pão eucarístico significa e realiza a unidade dos crentes que formamos um só corpo em Cristo e um corpo orgânico e harmoniosamente articulado com diversidade de membros, ministérios e serviços.
15.  Popularmente chamamos à Eucarista de “Missa”. Recorda as antigas palavras de despedida: Ite, missa est. Missa significa missão, envio. Ao concluir a Eucarista não ficamos fechados no recinto de um templo, mas somos enviados, colocamo-nos em caminho para levar e testemunhar Jesus Cristo vivo nas nossas ruas, casas, escolas e locais de serviço, nas nossas famílias e nas instituições políticas e sociais. A Igreja está, edifica-se e cresce na Eucaristia. E Igreja se faz sínodo na Eucaristia.
A REALIDADE DA IGREJA DE MOXICO
16.  A nossa Diocese, depois de um período inicial de franca expansão, viveu um tempo caracterizado não só pela destruição ou grave deterioro de mais de sessenta das suas estruturas, mas também pela dispersão de inúmeras comunidades por causa das guerras de independência e sobretudo pela guerra fratricida que assolou o país todo e muito particularmente a nossa província. Nessa altura, houve uma diminuição drástica de missionários e uma dispersão notável de muitos fieis. Foi um período amargo da nossa história, mas também temos que reconhecer e agradecer pastores e fiéis, principalmente os catequistas, que mantiveram viva a chama da fé do nosso povo.
17.  Com o advento da paz foi possível a reinstalação das populações nos locais de origem e a abertura de muitas missões, trabalho feito com muito sacrifício e heroísmo. Actualmente, após mais de dez anos de paz, vivemos um tempo privilegiado: há liberdade religiosa, que nem sempre existiu no passado, e, mesmo com as dificuldades inerentes ao estado dos caminhos, é possível chegar até aos locais mais recônditos da nossa extensa Diocese.
18.   Apesar destes sinais positivos, não nos podemos iludir: Angola tem 522 anos de evangelização e Moxico apenas 80, boa parte deles vividos em conflitos armados, com a conseqüente carência de missionários e de condições propícias para a tarefa da evangelização.  Por isso não é de admirar que o nosso território  tenha uma das percentagens mais baixas de católicos a nível nacional.
19.  Não podemos deixar de agradecer a Deus a resposta positiva ao apelo feito para a vinda de novos missionários/as: chegaram num número ainda muito aquém do necessário, mas significativo, provenientes de muitas partes do país e do mundo inteiro.
20.  As comunidades cristãs partilham tradições eclesiais diversas: aquelas que permaneceram no território da Província, aquelas que emigraram para outras localidades de Angola, as que passaram longos anos além fronteiras; cada uma delas carrega consigo tradições culturais e eclesiais que se expressam no modo de celebrar, de orar e de constituir comunidades.
21.  Esta diversidade em si mesma é riqueza, mas como fazer para que seja partilhada e, sobretudo, para conseguir uma identidade, uma fisionomia própria como Diocese?
O NOSSO ESTILO DE SER IGREJA
22.  Os anos de conflito e as dificuldades inerentes à pos-guerra, não ajudaram a implementar o novo estilo de ser igreja, que, a partir do Concílio Vaticano II foi dando um novo rosto, uma nova dinâmica a toda a igreja e que se foi actualizando para nós através dos Sínodos Africanos e dos documentos deles emanados, nomeadamente “Ecclesia in Africa” do Beato João Paulo II e “Africae Munus” do Papa Bento XVI.
23.  Quanto à pastoral, falta unidade de critérios; há orientações, mas nem sempre são assumidas por todos, criando divergências e atraso pastoral, que se verifica no andamento das comunidades cristãs e a morosidade na aplicação de dinâmicas que tornariam mais eficaz a tarefa da evangelização, tornando a nossa igreja local mais missionária. Para esta necessária viragem contamos com duas ferramentas valiosas: O Conselho Diocesano de Pastoral e o Secretariado Executivo da Pastoral (SEP)
APELOS E PERSPECTIVAS
24.  E precisamente quanto à sua “missionariedade”, a nossa igreja local é deficitária: há populações inteiras sem presença da igreja, comunidades eclesiais que não são visitadas; verifica-se um certo comodismo: é imperioso despertar para a missão recebida no baptismo; temos que começar a “sair” das nossas estruturas eclesiais para ir ao encontro das populações, desafiando as distâncias; mas mesmo na cidade de Luena e nos novos bairros das vilas de Moxico encontramos uma gritante falta de presença de igreja, perante o silêncio e passividade de muitos. Todos, pelo nosso baptismo somos missionários. Urge a necessidade de ir ao encontro dessas populações.
25.  A estas periferias, devem agregar-se outras que são como “novos mundos” emergentes que devem chamar a nossa atenção: a quantidade cada vez crescente de imigrantes que chegam à nossa Província, as TICs e um mundo juvenil com novos valores, expressões e desafios. 
26.  As comunidades, não raro, funcionam a “ministério único” (catequista, pároco) sem mostrar ao mundo, a diversidade de serviços e ministérios que têm sua origem que tem e a variedade polifônica dos dons do Espírito Santo, que os suscita e sustenta.
27.  Não podemos ignorar os desafios que advém de fenômenos antigos que assumem novas formas e nos interpelam: a solidificação da mentalidade feiticista, o surgimento de seitas e movimentos religiosos que, em grande número, apresentam-se como alternativa atraente com a sua teologia da prosperidade e promessas que, mesmo incumpridas, não deixam de fascinar e seduzir.
O SÍNODO COMEÇA HOJE
28.  O Sínodo, sem ser o remédio para todos os nossos males, é uma tentativa de dar uma resposta madura a estes desafios, numa pastoral orgânica, rica pela sua diversidade, que cria comunhão, não tanto como fruto de acordos entre nós, mas a partir da nossa união com Cristo.
29.  Esta Igreja-família, Igreja-comunhão, Igreja-corresponsabilidade, que podemos chamar igreja sinodal, tem organismos e estruturas, que são as paróquias, as comissões, diocesanas e paroquiais, os conselhos diocesanos e paroquiais.
30.  Este sínodo que hoje anuncio concluirá, se Deus quiser, no fim do ano 2015, mas não tem ainda uma data fixa. Inicia hoje, com a nomeação da comissão preparatória.
31.  Coloco este Sínodo sob a protecção de Nossa Senhora de Fátima, cujo santuário teremos a ocasião de inaugurar em breve, e de Santa Teresa de Jesus, Doutora da Igreja, mestra da vida espiritual, cujo 5º centenário do nascimento será comemorado durante o nosso Sínodo.
† Jesus Tirso Blanco
Bispo de Lwena
24 de Novembro de 2013
Encerramento do Ano da Fé na Festa de Cristo Rei


ACTO DE ENTREGA A NOSSA SENHORA
 Bem-Aventurada Virgem de Fátima, com renovada gratidão pela tua presença materna unimos a nossa voz à de todas as gerações que te dizem bem-aventurada.
Celebramos em ti as grandes obras de Deus, que nunca se cansa de se inclinar com misericórdia sobre a humanidade, atormentada pelo mal e ferida pelo pecado, para a guiar e salvar.
Acolhe com benevolência de Mãe o acto de entrega que hoje fazemos com confiança.
Temos a certeza que cada um de nós é precioso aos teus olhos e que nada te é desconhecido de tudo o que habita os nossos corações. Deixamo-nos alcançar pelo teu olhar dulcíssimo e recebemos a carícia confortadora do teu sorriso.
Guarda a nossa vida entre os teus braços: abençoa e fortalece qualquer desejo de bem; reacende e alimenta a fé; ampara e ilumina a esperança; suscita e anima a caridade; guia todos nós no caminho da santidade.
Ensina-nos o teu mesmo amor de predilecção pelos pequeninos e pelos pobres, pelos excluídos e sofredores, pelos pecadores e os desorientados; reúne todos sob a tua protecção e recomenda todos ao teu dilecto Filho, nosso Senhor Jesus.
Amém.
(Papa Francisco, Roma, 13 de Outubro de 2013)



[1] Actos 15, 1-30
[2] Concílio Vaticano II, Christus Dominus (CD), 36
[3] Ibid.
[4] C.I.C. Cân. 460

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Missionários enraizados em Cristo



MENSAGEM PASTORAL: CEAST, OUTUBRO 2013

 

                            “MISSIONÁRIOS ENRAIZADOS EM CRISTO”

 

 

INTRODUÇÃO
1.Depois de um triénio pastoral dedicado à família e no seguimento do Ano da Fé que vivemos neste ano de 2013, os Bispos, reunidos na Assembleia Geral Ordinária da CEAST, que teve lugar na cidade de Kwito, no fim de Fevereiro e início de Março deste ano, refletiram sobre a realidade da nossa Igreja e decidiram, em sintonia com as orientações da Santa Sé, tomar como tema geral para o triênio 2014 – 2016 a NOVA EVANGELIZAÇÃO, organizando os três anos do seguinte modo:
 
1º ano: “missionários enraizados em Cristo”;
2º ano: “reavivar a fé em Cristo nos fiéis”;
3º ano: “tornar a paróquia centro da evangelização”.
 
A evangelização não poderá ser realizada sem evangelizadores. É certo que todos os cristãos confirmados são chamados a evangelizar, mas é igualmente certo que os agentes primeiros da evangelização são os pastores (bispos, padres e diáconos)  e os consagrados (religiosos, religiosas, membros de institutos seculares e leigos consagrados).
A presente mensagem, portanto, tem a finalidade de dar orientações, sobretudo, para os missionários (pessoas consagradas) presentes em Angola e São Tomé e Príncipe, sobre o que é evangelizar e como sermos evangelizadores enraizados verdadeiramente em Cristo, numa tríplice dimensão:
 
1.            Chamados a viver em Cristo
2.            Chamados a anunciar Cristo
3.            Chamados a testemunhar Cristo
 
 
1.        Chamados a viver em Cristo
2. A nossa missão de evangelizadores vem, em primeiro lugar, do nosso baptismo. Pelo baptismo tornamo-nos filhos de Deus, membros da Igreja, herdeiros da vida eterna. Como diz o Catecismo da Igreja Católica: “O santo Baptismo é o fundamento de toda a vida cristã. Pelo Baptismo somos libertos do pecado e regenerados como filhos de Deus: tornamo-nos membros de Cristo e somos incorporados na Igreja e tornados participantes na sua missão” (CIC 1213). E acrescenta uma citação de São Gregório Nazianzeno: «O Baptismo é o mais belo e magnífico dos dons de Deus [...] Chamamos-lhe dom, graça, unção, iluminação, veste de incorruptibilidade, banho de regeneração, selo e tudo o que há de mais precioso. Dom, porque é conferido àqueles que não trazem nada: graça, porque é dado mesmo aos culpados: baptismo, porque o pecado é sepultado nas águas; unção, porque é sagrado e régio (como aqueles que são ungidos); iluminação, porque é luz irradiante; veste, porque cobre a nossa vergonha; banho, porque lava; selo, porque nos guarda e é sinal do senhorio de Deus» (CIC 1216).
Baptizados em Cristo: a nossa primeira vocação é sermos santos, é viver em Cristo. O objectivo da nossa existência como cristãos é um dia podermos dizer: já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim. (Gal 2,20) Diz-nos São Paulo, na Carta aos Romanos: “Pelo Baptismo fomos, pois, sepultados com Cristo na morte, para que, tal como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos para a glória do Pai, também nós caminhemos numa vida nova. De facto, se estamos integrados nele por uma morte idêntica à sua, também o estaremos pela sua ressurreição.” (Rm 6, 4-5).

 
3. Devemos olhar para a primeira comunidade de Jerusalém e ver aí as consequências do baptismo, da fé em Cristo Jesus ressuscitado. Baptizados em Cristo, aqueles cristãos assumiram uma vida nova. “Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fracção do pão e às orações. Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um. (Act 2, 42-45) “A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma. Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas entre eles tudo era comum. Com grande poder, os Apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e uma grande graça operava em todos eles. Entre eles não havia ninguém necessitado.” (Act 4, 32-34)
O cristão baptizado vive uma vida nova, transformada, não conformada com a mentalidade e a maneira de viver do mundo (cf Rm 12, 2), é assíduo à fracção do pão (Eucaristia) e às orações; vive a fraternidade no coração e nas obras.
 
2.        Chamados a anunciar Cristo
4. Na sua Mensagem para o Dia Mundial das Missões deste ano de 2013, o Santo Padre Francisco afirmava: “A fé é dom precioso de Deus, que abre a nossa mente para que O possamos conhecer e amar. Ele quer se relacionar conosco para nos fazer participantes da sua própria vida e tornar a nossa vida mais plena de significado, melhor e mais bela. Deus nos ama! E é um dom que não podemos manter somente para nós mesmos, mas deve ser compartilhado. Se quisermos mantê-lo para nós mesmos, tornar-nos-emos cristãos isolados, estéreis e doentes. O anúncio do Evangelho faz parte do ser discípulos de Cristo e é um compromisso constante que anima toda a vida da Igreja. A solidez da nossa fé, a nível pessoal e comunitário, mede‑se também pela nossa capacidade de comunicá-la a outros, de difundi-la, de vivê-la na caridade, de testemunhá-la a quem encontramos e partilha conosco o caminho da vida.”
A Igreja existe para evangelizar: "Nós queremos confirmar, uma vez mais ainda, que a tarefa de evangelizar todos os homens constitui a missão essencial da Igreja; tarefa e missão, que as amplas e profundas mudanças da sociedade actual tornam ainda mais urgentes. Evangelizar constitui, de fato, a graça e a vocação própria da Igreja, a sua mais profunda identidade. Ela existe para evangelizar, ou seja, para pregar e ensinar, ser o canal do dom da graça (EN, nº 14). Seria bom voltar a ler e meditar, de novo, a exortação apostólica Evangelii Nuntiandi do Papa Paulo VI.
 
5. Como nos recordou também o Santo Padre, Papa Emérito Bento XVI, no discurso aos bispos de Angola e São Tomé por ocasião da visita “ad limina Apostolorum”, no dia 3 de Novembro de 2011: “Vós, amados Irmãos, em virtude da missão apostólica recebida, estais habilitados para introduzir o vosso povo no coração do mistério da fé, encontrando a Pessoa viva de Jesus Cristo. Enquanto Igreja … , o nosso primeiro e mais específico contributo para o povo africano é a proclamação do Evangelho de Jesus Cristo, uma vez que o anúncio de Cristo é o primeiro e principal factor de desenvolvimento. De facto, a dedicação ao serviço do desenvolvimento procede da transformação do coração, e a transformação do coração só pode vir da conversão ao Evangelho» (Mensagem final, 15). Este não oferece «uma palavra anestesiante, mas desinstaladora, que chama à conversão, que toma acessível o encontro com Cristo, através do qual floresce uma humanidade nova» (Exort. Verbum Domini, 93).
        
 “O anúncio, de facto, não adquire toda a sua dimensão, senão quando ele for ouvido, acolhido, assimilado e quando ele tiver feito brotar naquele que assim o tenha recebido uma adesão do coração. Sim, adesão às verdades que o Senhor, por misericórdia, revelou. Mais ainda, adesão ao programa de vida, vida doravante transformada, que ele propõe; adesão, numa palavra, ao Reino, o que é dizer, ao "mundo novo", ao novo estado de coisas, à nova maneira de ser, de viver, de estar junto com os outros, que o Evangelho inaugura. Uma tal adesão, que não pode permanecer abstrata e desencarnada, manifesta-se concretamente por uma entrada visível numa comunidade de fiéis (EN 23).
A tarefa missionária é de todos os cristãos, mas ainda assim a presença e o ministério do presbítero são únicos, necessários e insubstituíveis (cfr. CONGREGAÇÃO PARA O CLERO, O presbítero, pastor e guia da comunidade paroquial, nº 2).
Evangelizar é, pois, dever de todo o cristão, mas de um modo particular de nós, bispos, padres, religiosos e religiosas, consagrados e consagradas.
 
E o que é evangelizar?
 
6. Evangelizar é uma palavra com um significado bastante amplo; a evangelização é uma realidade rica, complexa e dinâmica, (cf EN 17), mas no seu sentido primordial significa anunciar a Boa Nova da salvação que Deus Pai nos oferece em Jesus Cristo. “Deus amou de tal modo o mundo que entregou o seu Filho Único, para que todo o que n’Ele acredita não morra mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16). Este é o kerigma que os Apóstolos pregaram.  “É pelo nome de Jesus Cristo, de Nazaré, - Aquele que crucificastes e que Deus ressuscitou dos mortos – é pelo seu Nome, e por nenhum outro, que este homem está curado diante de vós. Jesus é a pedra que vós, construtores rejeitastes e que Se tornou a pedro angular. Não existe salvação em nenhum outro, pois debaixo do céu não existe outro nome dado aos homens, pelo qual possam ser salvos” (Act 4, 10-12; cf Act 5, 30-32).  
Evangelizar, então, é anunciar e testemunhar o Nome de Jesus como único Salvador dos homens. Não é um discurso genérico sobre a religião, sobre Deus criador, legislador e juiz; é anunciar o dom de Deus, que é o seu próprio Filho, que por nós se encarnou, ensinou a verdade e o caminho do Reino de Deus, morreu pelos nossos pecados e ressuscitou ao terceiro dia para abrir-nos o caminho da vida eterna (cf 1 Cor, 15, 3-5). Evangelizar é anunciar Cristo ao mundo.

3.        Chamados a testemunhar Cristo
7. “Esta Boa Nova há-de ser proclamada, antes de mais, pelo testemunho… Todos os cristãos são chamados a dar este testemunho e podem ser, sob este aspecto, verdadeiros evangelizadores ” (EN 21).
Já o Papa Paulo VI afirmava que o nosso mundo necessita mais de testemunhas que de mestres. A Palavra aquece o coração, mas o exemplo arrasta. Por isso, o primeiro modo de evangelizarmos é o testemunho da própria vida.
Tagore, um poeta indiano, dizia: “ide até ao rio, pegai numa das pedras roladas do rio, mergulhada na água há muitos anos, e parti-a. Vereis que por dentro está seca. Assim são os cristãos. Falam muito de Deus, mas não deixam que Deus entre dentro das suas vidas”. Esperamos que estas palavras não se apliquem a nós. Temos de deixar-nos transformar por Cristo, pela sua graça e testemunhar essa vida nova que vivemos em Cristo, com o testemunho da nossa vida.
Talvez seja oportuno lembrar que a conversão a Cristo não é algo que se deve presumir como já realizada pelo simples facto de se ter sido baptizado. A conversão a Cristo é um caminho permanente na nossa existência.
 
8. Para evangelizar é necessário antes ter sido evangelizado, ter reconhecido Jesus como único Salvador e proclamar a seu senhorio. O grito de Paulo: “ai de mim se não evangelizar” pode-se aplicar noutro sentido: “Ai de quem procura evangelizar sem antes ter sido evangelizado pela Boa Nova de Jesus”.  (José Prado Flores, fundador das Escolas Santo André).
“A evangelização não deve ser assumida como um compromisso “ad extra”; nós mesmos, pelo contrário, somos os primeiros a ter necessidade de uma re‑evangelização. É somente através de uma renovação interior que teremos a capacidade de fazer discernimento e conciliar as necessidades espirituais da nossa época com a verdade sem tempo do Evangelho” (Bento XVI aos bispos dos EUA).
 
9. Cada baptizado é «cristoforo», ou seja, portador de Cristo, como diziam os antigos Padres. Quem encontrou Cristo, como a Samaritana no poço, não pode conservar esta experiência para si, mas sente o desejo de a compartilhar, para levar outras pessoas a Jesus (cf. Jo 4). Todos nós devemos perguntar se quem se encontra connosco sente na nossa vida o entusiasmo da fé, se vê no nosso rosto a alegria de ter encontrado Cristo! (Papa Francisco Discurso aos participantes na plenária do Pontifício Conselho para a promoção da Nova Evangelização-  14 de Outubro de 2013)
“Pergunto-me: onde encontravam os primeiros discípulos a força para este seu testemunho? Como conseguiram, com os seus limites e hostilizados pelas autoridades, encher Jerusalém com o seu ensinamento? (cf. Act 5, 28) É claro que só a presença do Senhor ressuscitado entre eles e a acção do Espírito Santo podem explicar este acontecimento. Só o Senhor que estava com eles e o Espírito que os impelia à pregação explicam este evento extraordinário. A sua fé baseava-se numa experiência tão forte e pessoal de Cristo morto e ressuscitado, que não tinham medo de nada nem de ninguém, e chegavam a ver as perseguições como um motivo de honra, que lhes permitia seguir os passos de Jesus e assemelhar-se a Ele, testemunhando-o com a própria vida.
Esta história da primeira comunidade cristã revela-nos algo muito importante, que é válido para a Igreja de todos os tempos, e também para nós: quando uma pessoa conhece verdadeiramente Jesus Cristo e crê nele, experimenta a sua presença na vida e a força da sua Ressurreição, e não consegue deixar de comunicar esta experiência. E se esta pessoa encontra incompreensões ou adversidades, comporta-se como Jesus na sua Paixão: responde com o amor e a força da verdade” (Papa Francisco, Angelus do 14 de Abril).
A situação da Igreja em Angola e São Tomé e Príncipe
 
10. Somos chamados a testemunhar a nossa fé em Cristo numa realidade concreta. Por isso, vamos tecer breves considerações sobre a realidade social e eclesial que vivemos nos nossos países. É uma realidade de luzes e de sombras, de angústias e esperanças.
Temos razões para dar graças ao Senhor: há mais de 500 anos que o Evangelho chegou a estas terras, graças a Deus e a missionários generosos sacrificados e heroicos. Quase todos os angolanos e santomenses são baptizados e a grande maioria católicos. A prática dominical é bastante elevada; as nossas liturgias são vivas e bem participadas pelos nossos fiéis. Temos um número de sacerdotes que está a crescer; actualmente os sacerdotes diocesanos em Angola e São Tomé são 614, mais 9 missionários “Fidei donum”. As vocações consagradas estão a aumentar. Os nossos seminários estão cheios e as casas de formação religiosas têm um número razoável de candidatos. Contamos com um número de 103 congregações religiosas femininas e 29 masculinas a trabalhar em nossas dioceses na pastoral e no campo da assistência social (educação e saúde). Nasceram na nossa Igreja em Angola vários Institutos e Associações de Vida Consagrada e movimentos de apostolado com um forte dinamismo evangelizador. Contamos igualmente com muitos leigos totalmente dedicados ao serviço da Igreja e dos irmãos.
 
11. Mas temos igualmente de reconhecer algumas sombras: Embora a grande maioria da nossa gente tenha recebido o baptismo, o coração de muitos baptizados está ainda dividido entre o cristianismo e alguns contra-valores da cultura tradicional africana.  A mentalidade mágico-feiticista está ainda presente entre muitos cristãos e mesmo entre pessoas consagradas.
A situação das nossas comunidades cristãs e das mesmas pessoas é caracterizada por uma forte religiosidade, mas onde se misturam crenças cristãs com tradições ancestrais que nem sempre se coadunam com a fé em Cristo. Ao mesmo tempo que nos confrontamos com uma cultura fortemente secularizada.
É neste ambiente que nascem e vivem os nossos jovens. E é destes jovens que vêm as vocações consagradas. Muitos acabam por não ser capazes de resistir aos convites do “mundo” e facilmente transformam em ideal de vida, não o serviço ao Evangelho e ao irmão, mas a auto-promoção. Os demónios do prazer, do ter e do poder sempre estão à espreita para nos tentar.
Muitos sacerdotes e consagrados esquecem que, em primeiro lugar, são consagrados e que a vivência da sua consagração, em fidelidade, castidade, partilha de bens, deve ser o objectivo primeiro da sua existência. Quem sabe se não é por esta razão que acontecem abandonos do sacerdócio e da vida religiosa. Certamente que muitos destes abandonos já se iniciaram muito antes, quando as pessoas em causa perderam o sentido último da sua existência: consagração da sua vida a Deus, no serviço aos mais pobres. Não posso viver o meu sacerdócio como se fosse um funcionário. Não posso ter feito promessa de celibato ou de castidade e viver em mancebia. Não posso fazer voto de pobreza e não entregar o meu salário à comunidade. Não posso ser consagrado e não ter zelo missionário, espírito de sacrifício, de concórdia, de paz e de entrega aos irmãos.
Vivemos um tempo em que há dificuldade em organizarmos a nossa vida de modo a termos tempo para os nossos trabalhos, mas também para o Senhor; a termos tempo para a internet e a televisão, mas também para o descanso e a meditação da Palavra de Deus; a termos tempo para as nossas diversões, mas também para a Eucaristia, a reconciliação e a escuta e acompanhamento dos irmãos.
 
4. Orientações práticas
12. Depois destas considerações, sugerimos algumas linhas de acção para uma revisão de vida pessoal e comunitária, algumas orientações referentes à formação inicial e permanente e sugestões para a vida pastoral.
A)     Revisão de vida pessoal e comunitária
- Como vivo a minha identidade cristã? Que significado tem para mim ser baptizado? Agradeço o dom da fé e o do baptismo?
- Como é que vivo a minha realidade de pastor e de consagrado/a? Preocupo-me em fazer do meu ministério e vocação um serviço a Deus, à Igreja e aos irmãos?
- Que tempo dedico ao anúncio da Palavra de Deus? Preocupo-me em levar a todos o Evangelho, anunciando Cristo ao mundo a tempo e fora do tempo?
- Como vivo os sacramentos na minha vida, de um modo particular o sacramento da reconciliação? Celebro ou participo todos os dias na Eucaristia e como o faço?
- Como vivo a minha vida em comunidade? Sou fiel à oração diária, nomeadamente à oração litúrgica, à leitura e meditação da Palavra de Deus, à contemplação e à adoração eucarística?
- A minha comunidade é uma comunidade evangelizadora, onde o anúncio de Cristo é preocupação fundamental de todos?
- Procuro ser pobre, casto e obediente como Cristo?
- Sou fiel às orientações da Igreja e vivo a minha consagração com verdade, alegria e solidariedade com os irmãos?
- Cultivo a espiritualidade da comunhão, da pastoral de conjunto, de amor à Igreja, integrando-me nos seus dinamismos pastorais?
 
B)     Formação inicial
13. Que haja um período de reflexão e aprofundamento espiritual antes da entrada no estudo da teologia ou no noviciado, que leve a pessoa à conversão pessoal a Cristo, conversão que se demonstre com acções concretas, com uma vida nova que manifeste claramente os valores evangélicos.
 Que a formação espiritual-cristã acompanhe sempre a formação humana-profissional (seminários, casas de formação, …).
Dê-se uma atenção particular à formação dos candidatos ao sacerdócio e à vida consagrada no que se refere ao celibato, à pobreza, à obediência e à vida comunitária.
Ensine-se a fazer bom uso das novas tecnologias de informação e comunicação, colocando-as ao serviço da missão de evangelizadores, sem nos tornarmos escravos das mesmas.
 
C)     Formação permanente
14. Organizem-se retiros (ao menos uma vez na vida, fazer os exercícios de um mês de Santo Inácio, ou algo equivalente), jornadas e cursos sobre a Nova Evangelização, experiências de “deserto”, comunicação de experiências fortes, testemunhos de pessoas vivas e defuntas, ler a vida dos nossos santos.
Que os sacerdotes e consagrados assumam como primeiro ideal de vida a sua consagração e missão, com espírito de serviço aos irmãos, sobretudo aos mais pobres e humildes e nas zonas mais desfavorecidas.
Que se faça um acompanhamento cuidado dos sacerdotes e consagrados durante os primeiros cinco anos de ordenação ou profissão perpétua.
Que os sacerdotes estudem e tenham sempre presentes as orientações que a Igreja oferece no Directório para a vida e ministério do presbítero.
 

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Escatologia Paulina


Tensão entre o Presente e o Vindouro


A esperança é um dos bens da existência humana. Paulo percebeu claramente tal fenômeno, sua mensagem de salvação é dirigida ao SH concreto, ameaçado, desperançado. “O ser humano é um ser insatisfeito. Finitude consciente e ânsia de existência perdurável, ser imperfeito e aberto a um constante aperfeiçoamento, o ser humano existe e tem que existir projetando-se” Neste projetar-se o ser humano (SH) demonstra sua abertura ao futuro, ao desconhecido, à aquilo que só se pode pensar.

         Paulo descreve a vida cristã como tensão, como vigília extremamente ativa e dinâmica, em função do encontro com Cristo Ressuscitado, e define como o SH deseja a vinda de seu Senhor. Por isso Paulo olha a morte como contingência: um fato que afeta o SH, mas que já não pode ser obstáculo à sua esperança nem construir, por outra parte, um condicionamento dela. Por isso também, considera o Céu, antes de tudo, como dialogo, afloração perpetua da amizade, quando o cristão estiver ‘para sempre com o Senhor”(I Tess 4,17), participando de sua glória e seu triunfo.

         Na Bíblia encontra-se a riqueza muito grande desta busca de esperança e sua concretização. O Primeiro Testamento (IT) sublinha o caráter efêmero da existência humana, especialmente a debilidade e carência da criatura que não pode valorizar-se, completar-se, em uma palavra, transcender-se, sem receber de Deus os bens que não possui por si mesma. Para a Bíblia o tempo é dimensão necessária à condição humana. Não é nem circular, nem helicoidal, nem simbólico, como nas concepções pagãs. É retilíneo e irreversível, um tempo vetorial. Parte de um ponto e caminha em uma direção. Cada segmento tem seu significado e posição própria. Nele se dá a realização de um designo, de uma “economia “divina. Por isso Abraão, que parte para não voltar e aceita “aventura” do tempo, é o modelo do israelita, sempre a caminho, e cuja atitude religiosa é a expectação, a espera.

         O IT tem sua continuidade no Segundo Testamento (IIT). Há, porém, uma mudança de perspectivas, na qual insiste Paulo: ‘Para o judaísmo, o ponto central do tempo está situado no futuro: o mundo novo ficará inaugurado com a vinda do messias, nos tempos vindouros. O cristianismo—sem perder de vista a meta final—coloca o ponto central no passado: o momento decisivo é aquele em que Cristo apareceu sobre a terra, dividindo em duas partes a historia humana.” Esse é para Paulo, o momento-cume, o grande ‘agora”, a plenitude dos tempos (Gal 4,4). Começaram ao dias salutares, o tempo favorável, e cada um pode, escutando a palavra de salvação, empreender o caminho que conduz à sua posse plena.

         Pode-se dizer, que, segundo a Bíblia, a existência humana é contingente, precariedade, finitude; mas é tudo isso enquanto é caminho, projeção, transcendência, para aquele que é sua princípio e fim e no qual encontra todo o seu cumprimento e plenitude. Eis por que a versão escatológica de Paulo como em todo IIT, é um fato fundamental. Trata-se de que toda vida cristã, inclusive a vida presente, está sob a luz escatológica. E os traços essenciais da teologia paulina não podem compreender sem essa visão. Para Paulo o cristão é peregrino, SH sempre em marcha. Os verbos de movimento: na primeira carta aos Coríntios o processo da luta, da ascese cristã, está em paralelo com a corrida dos atletas, metáfora que contem a exortação a correr de maneira a alcançar a meta. Aos Gálatas escreve: “Correis bem”. De si mesmo afirma “Prossigo em direção do alvo’. E já próximo da morte, resume toda sua vida de apostolo nesta expressão: “Terminei minha carreira” (2Tm 4,7).

         Se o cristão deve estar sempre em marcha, é porque não tem aqui na terra morada permanente; é membro da Jerusalém celeste (Gal 4,26) cidadão do Céu (Fl 3,20); pertence ao século futuro, ao mesmo tempo que vive no presente. Tem , pois, uma meta bem definida e sabe para onde vai; embora caminhe não na visão, mas na noite da fé. Com relação a essa meta do peregrinar cristão, o pensamento de Paulo, ainda sem perder a orientação ultima da glorificação escatológica, apresenta matizes, que vem a ser aspectos complementares da mesma realidade. Por isso Paulo exorta aos Efésios (4,1) “a caminhar de um modo digno de sua vocação” cujos frutos são bondade, justiça e verdade, concretizando nesses três termos a imagem do cristão perfeito. A maturidade cristã, da perfeição da vida espiritual, como meta ardentemente desejada, fala Paulo aos Filipenses, descrevendo sua própria experiência. A passagem se reveste de humilde confissão: Não que eu já tenha alcançado o premio ou que já seja perfeito, mas prossigo minha carreira para ver se de algum modo o poderei alcançar, visto que eu fui apreendido por Cristo Jesus (Fl 3,20).

         Paulo, que descreve a vida cristão como caminho, assinala também as atitudes fundamentais dessa vida: na fé, na esperança e na caridade, o cristão tende, por meio de Cristo e no Espírito Santo, ao Pai. Desse modo, vai progressivamente aprofundando no mistério de comunhão que é a vida cristã, até que seja admitido na plena comunhão da glória. A afirmação teologal de Paulo sobre a fé, esperança e caridade, aparecem mais dez vezes (Rm 12,6.9.12.; Ef 4,2-5; 2Ts 1,3-4; 1 Tm 1,14-16; 2Tm 3,10; At 6,10-12; 10,22-24; Cl 1, 4-5; 1 Cor 11-13).

         Na primeira carta aos Tessolonices, caracteriza-se a atitude dos cristãos, diante daqueles que não são, servindo-se de uma alegoria da vida militar e exortando-os a revestir-se da “couraça da fé e da caridade , e do elmo da esperança da salvação”. Do mesmo modo, a fé em Cristo Jesus, que confessam os Colossenses e sua caridade para com os santos, em vista da esperança que lhes está reservada na outra vida é para ele motivo de alegria e de incessantes ações de graças. Aos Gálatas recorda que “o Espírito nos move a esperar os bens da justiça” e que em Cristo Jesus só tem validez a fé que opera pela caridade.

         As relações entre a Fé e a Esperança vem expressas na epistola aos Hebreus ‘A fé é a firme segurança do que esperamos, a convicção do que não vemos’. Isto é, a fé é a base e o suporte da esperança, já que esta tem por objeto bens futuros e invisíveis e que devem ser, portanto, previamente, objeto da fé. A Esperança não ficará, porque o amor de Deus se derramou em nossos corações, pelo Espírito Santo que nos foi dado (Rm5,5).

         Paulo mostra a face autentica da esperança: ninguém mais livre nem ativo que o SH de esperança, o verdadeiro cristão.A perspectiva escatológica, que define sua vida, reclama do cristão o Maximo de atenção e de lucidez. Não se trata de estar próximo e alerta, mas se lhe pede também uma atitude dinâmica, capaz de determinar um estilo de vida.

         A vida cristã é tensão, é vigília extremamente ativa e dinâmica, Por isso Paulo olha a morte como contingência. Vida e morte são duas noções complementares para Paulo; a primeira tem toda plenitude, não só a existência do composto humano, mas sobretudo, a vida de graça e a vida da gloria: a participação na justiça d e Cristo, a Bem-aventurança celestial. Paralelamente, a morte designa, nos escritos paulinos, ora a separação física da alma e do corpo, ora a privação da graça santificante; ora a condenação eterna, que no evangelho de João é chamada de segunda morte; outras vezes significa todas essas juntas, unidas por um laço de intima dependência.

         Na carta aos Romanos, todos os efeitos do pecado são compreendidos sob o nome de morte e todos os efeitos da graça como vida. Ao horror diante da morte, Paulo expressa aos Coríntios quando lhes diz que a passagem para a vida, sem ter que atravessar o difícil transe da morte, é um reverti-se que se espera com ardor para qual o mortal seja absorvido pela vida (2 Cor 15,21). A segunda parte da Carta aos Romanos constitui uma argumentação comprovada da segurança da esperança, fundamentada no amor de Deus ao SH.

         Paulo ainda acentua o aspecto de nossa participação na morte de Cristo, servido-se do simbolismo do Batismo. A participação na morte de Cristo, começada no Batismo, é fortalecida, em cada sacramento, no âmbito da mistério, e faz-se perceptível à nossa experiência nas dores e padecimentos da vida para atingir sua plenitude na morte corporal. Tal morte vem a ser, assim, a ultima e suprema possibilidade de participação na morte de Cristo. É nisso precisamente que se revela sua face autentica, não só o ponto final, causal ou naturalmente sucedido da vida que declina, senão o supremo desenvolvimento e maturação daquilo que foi fundamento no batismo.

         A razão ultima do cristão diante da morte está em que ela é fruto do pecado; é, portanto, em ultima analise, a angustia ante o afastamento de Deus. Porque não há duvida de que o sentido mais profundo da morte consiste em ser um encontro do SH com Deus, um processo entre Deus e a pessoa humana, algo que acontece entre a solidão do Tu divino e do eu humano. Por outra parte, quanto mais Deus se aproxima dele, tanto mais claramente vê o SH sua oposição a Deus, tanto mais aprende a medir-se sua insuficiência e impureza com a medida de Deus, a sentir-se pecador. Está é a angústia do SH diante  da morte.

         Há nos cristãos muitas atitudes falsas, em relação a essa outra vida, que chamamos céu. As mais freqüentes consistem em imaginar o céu como compensação das fraquezas, às ignorâncias e misérias da terra; como solução às injustiças sociais de nosso mundo; como desculpa do não compromisso nas tarefas terrestres, ou uma espécie de espetáculo para espectadores passivos e fechados em si mesmos. A noção paulina de céu difere completamente de tudo isso. Para conhecer o que é céu, na mente de Paulo, há uma expressão chave em seus escritos “ estar com Cristo”. Paulo fala também do céu como experiência inefável, como visão face a face (1 Cor 12,2-4). Não há duvida, porém, de que, para Paulo, o ceu se centraliza, antes de tudo, em uma pessoa –Jesus Cristo— e que “estar com Cristo” resume tudo. O conteúdo desta frase permite-nos afirmar portanto, que se para Paulo a vida é tensão, e a morte contingência, o céu é, antes de tudo, diálogo, plena floração da amizade, amizade com Cristo. Esse dialogo, começado sobre a terra, na união germinal e imperfeita da graça, pode desenvolver-se e culmina na perfeita união escatológica.

         Paulo sabe que a plenitude do ‘estar com Cristo’ só se conquistará na Parusia, quando o Cristo glorioso vier do céu para transformar nosso corpo e torna-lo semelhante ao seu (Fl 3,20-21).Por isso vive totalmente orientado para a parusia. A volta de Cristo está continuamente no horizonte de seus pensamentos.Nada exerce sobre ele influencia tão poderosos como essa espera. Com ela consola e reconforta o coração dos crente nas tribulações (1Cor 7,26; 16,22; Tm 1,12). Nela se apóia para pedir-lhes Constancia e fidelidade. Os textos escatológicos, mais extensos de toda a literatura neotestamentaria, encontram-se em suas cartas

         O cristão (ã) sensível aos sinais dos tempos, não pode colocar-se fora desta realidade histórica: vivemos a hora da esperança, pois ela venceu o medo. Na ordem das esperanças humanas, as pessoas e os grupos sociais estão sedentos de vida plena e de vida livre, digna do SH, que coloque a seu serviço as imensas possibilidades que lhes oferece a cultura atual. Na ordem da esperança supraterrena, o SH sente-se limitado em seus desejos e chamado a uma vida superior. A inquietação, a expectativa formam desse modo a trama de sua existência e dão a Tonica à conjuntura histórica presente. Daí, a grande atualidade da doutrina paulina, com sua teologia da esperança.

         Paulo traz à luz, em muitas passagens, a dialética da esperança e ensina aos cristãos(ãs) que lhes foi dada a existência celestial, mas só em germe; que estão santificados, mas só na raiz; são filhos de Deus, mas ainda não se revelaram como tais; caminham para a meta não chegaram ainda; a figura deste mundo está passando, contudo, ainda não terminou. A situação de posse e de espera é, pois, a que define a condição cristã na terra: peregrina, caminhante na fé e esperança. Semelhante tensão entre o presente e o vindouro é, por outra parte,uma tensão humana. O SH leva em seu próprio ser um impulso indefectível para o futuro. É e VEM A SER, num processo continuo de fazer-se, de realizar-se; é esta tensão que o define como ser histórico.

 

BIBLIOGRAFIA

Freitas, Maria Carmelita; Dialética e dinamismo da esperança cristã; Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 1968.

Mackenzie, John L.; Dicionário bíblico 4aedição, Paulus, São Paulo, SP, 1984.

Junges, José Roque; Evento Cristo e Ação humana, Ed.Unisinos, São Leopoldo RS, 2001

Misterium Salutis; V/3, A escatologia, Ed. Vozes, Petrópolis, RJ; 1985

Lepargneur, Hubert, Esperança e escatologia, Ed. Paulinas, São Paulo, SP; 1974.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Tradição Magistério Escritura


Tradição + Magistério + Escritura.

O que é a Bíblia?

Digamos à guisa de definição, que a Bíblia é um conjunto de 73 livros com vários títulos ou denominações: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Evangelhos, várias epístolas etc., os quais podem ser localizados pelo índice geral dela. Divide-se em duas partes bem destacáveis: o Antigo Testamento e o Novo Testamento.

Testamento é o nome que se dá à Aliança "contraída" com Abraão e "cumprida" em Jesus Cristo. Enquanto projeção  de Abraão designou-se por Antigo Testamento aos acontecimentos a ela correlatos;  quando afins à Nova Aliança em Jesus Cristo, tomou o nome de Novo Testamento. É que um testamento "traz" disposições que devem ser "cumpridas" após a morte de um dos testadores, no caso, Abraão no Antigo e Jesus no Novo, "trazendo", para a Homem "cumprir", "disposições de última vontade", e "uma herança".

A Bíblia vem geralmente dividida em capítulos e versículos. Os capítulos são especificados por números maiores colocados num começo de narrativa parcial e os versículos por algarismos menores colocados antes das frases que compõem o capítulo. Costuma-se dar títulos aos vários capítulos, ou a trechos deles, também conhecidos por "perícopes", que foram ai incorporados pretendendo facilitar a compreensão e a localização por assuntos, mas não fazem parte integrante e indestacável do contexto.

 

POR QUÊ A BÍBLIA É IMPORTANTE?

Só há uma razão pela qual se pode dizer que a Bíblia é importante, tal como São Paulo diz: "E não somos como Moisés, que punha um véu sobre o rosto, para que os filhos de Israel não vissem o final da glória que se desvanecia; e assim o entendimento deles ficou obscurecido. Pois até o dia de hoje, à leitura do velho testamento, permanece o mesmo véu, não lhes sendo revelado que em Cristo é ele abolido; sim, até o dia de hoje, quando Moisés é lido, um véu está posto sobre o coração deles. Contudo, convertendo-se ao Senhor, é-lhe tirado o véu" (2 Co 3,13-16).

A Bíblia é importante por causa de: Jesus Cristo

Sem Jesus Cristo, a Bíblia não passa de um dos livros ultrapassados que por ai existem nos museus ou em uso nos mitos e superstições ou fossilizados. Pode-se pretender que ela seja a Palavra de Deus. E é, mas a Palavra de Deus plenamente revelada por Jesus Cristo. Ele é a Revelação por excelência, a única Revelação do Pai;

Jesus é a Palavra do Pai

Diz-se que Jesus é a PALAVRA porque manifesta ou revela o Pai, tal como Ele mesmo o diz: "Jesus lhe disse: "Filipe, há tanto tempo estou convosco e não me conheces? Quem me tem visto, tem visto o Pai. Como podes dizer: mostra-nos o Pai?"  (Jo 14,9). Também Paulo e João o dizem: "Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda criatura..." (Col 1,15) “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus"  (...) "Ninguém jamais viu a Deus. o Filho Unigênito, que está no seio do Pai, é quem o deu a conhecer."  (Jo 1,1.18).

É essa a função da PALAVRA: tornar conhecido o que ela significa. Caso um professor permaneça em silêncio perante um grupo de alunos, eles nada saberão de seu saber íntimo, pois, sem a palavra nada se sabe. Quando ele começar a falar, a fazer o uso "da palavra", passará a ser entendido e os alunos apreenderão o que ensina, por aquilo que ele "revelar" com a sua palavra. Ora, Jesus "revelou" o Pai; logo, JESUS é a PALAVRA DO PAI.

 

Revelação

Já ficou claro pelo acima exposto que Cristo é a Revelação única e definitiva, e que somente aquilo que transmitiu aos Apóstolos, que nos vem pela Tradição e o Magistério da Igreja, pode-se dizer "revelado". É que, com a morte do último Apóstolo, terminou a transmissão oral da Revelação, o que se conhece por Tradição, ficando apenas o que foi deixado por eles como "depósito" (de fé), como o denominou São Paulo (1 Tm 6,20; 2 Tm 1,12-14), que compõe o Magistério da Igreja, aquilo que ela ensina. Melhor o diz o Catecismo da Igreja Católica, recém promulgado por João Paulo II: "'Muitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente aos nossos pais, pelos profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por seu Filho' (Hb 1,1-2). Cristo, Filho de Deus feito homem, é a Palavra Única, Perfeita e Insuperável do Pai. Nele o Pai disse tudo, e não haverá outra palavra além dessa. (...) A Economia Cristã, portanto, como Aliança Nova e Definitiva, jamais passará, e já não se há de esperar nenhuma outra Revelação pública antes da gloriosa manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo"   (n.º 64-65).

 

Inspiração

Tal como a Revelação, também a Inspiração Bíblica já acabou. O que ilumina a Igreja em prosseguimento à Obra de Cristo (Jo 20,21) é uma especial Assistência do Espírito Santo, e não se confunde com a Inspiração Bíblica, como a própria Igreja define e explica: "A verdade divinamente revelada, que os livros da Sagrada Escritura contêm e apresentam, (...). ...escritos sob a Inspiração do Espírito Santo (cf. Jo 20,31; 1 Tm 3,16; 2 Pe 1,19-21; 3,15-16), eles têm Deus por autor e nesta qualidade foram confiados à Igreja. Para escrever os Livros Sagrados, Deus escolheu e serviu-se de homens, na posse das suas faculdades e capacidades, para que, agindo Ele neles e por eles, escrevessem, como verdadeiros autores, tudo aquilo e só aquilo que Ele próprio queria" ("Dei Verbum" n.º 11; Catecismo. da Igreja Católica n.º 105/106). "Por isso, a pregação apostólica, que é expressa de modo especial nos livros inspirados, devia conservar-se por uma sucessão contínua até a consumação dos tempos. (...). Esta Tradição, oriunda dos Apóstolos, progride na Igreja sob a Assistência do Espírito Santo..." (Constituição 'Dei Verbum', Conc. Vat. II, n.º 8).

O que não se deve perder de mira é que tanto a Revelação como a Inspiração foram dons ou carismas especiais de Deus para a confecção da Sagrada Escritura, e isto se deu quando dos originais, não se estendendo às traduções, aos comentários ou mesmo à exegese. Por isso, a missão da Igreja de interprete única, por causa daquele já mencionado "depósito" (da fé) que lhe é pertinente: "O 'depósito' (1 Tm 6,20; 2 Tm 1,12-14) da fé ("depositum fidei"), contido na Sagrada Tradição e na Sagrada Escritura, foi confiado pelos Apóstolos à totalidade da Igreja. 'Apoiando-se nele, o Povo Santo todo, unido a seus Pastores, persevera continuamente na doutrina dos Apóstolos e na comunhão, na Fração do Pão e nas Orações, de sorte que na conservação, no exercício e na profissão da fé transmitida, se crie uma singular unidade de espírito entre os bispos e os fiéis.' (cfr. Catecismo 84) 'O encargo de interpretar autenticamente a Palavra de Deus escrita ou transmitida foi confiado unicamente ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade se exerce em nome de Jesus Cristo' ("Dei Verbum", 10), isto é, aos bispos em comunhão com o sucessor de Pedro, o bispo de Roma" (idem 85). Pode-se desde já perceber a importância da Tradição, que é a transmissão das verdades reveladas pelos Apóstolos a seus sucessores, no que se estrutura o Magistério da Igreja.

 

Tradição, Magistério e Escritura

Cristo não é um fundador de nova religião, nem o cristianismo é uma "heresia" do judaísmo. Os Apóstolos e os discípulos continuaram freqüentando o Templo e seguindo os rituais ali celebrados, até mesmo após a Sua Morte, Ressurreição e Ascensão (Lc 24,53; At 2,46; 3,1) bem como após o Pentecostes (At 2,46; 3,1...). Compartilhavam da "visão" de Jesus de que o cristianismo é o "cumprimento" do judaísmo, o seu ponto de chegada: "Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da lei um só "i" ou um só "til", até que tudo seja cumprido" (Mt 5,17-18).

Entretanto, os primeiros cristãos não conheciam o Novo Testamento tal como se conhece hoje. Quando muito haviam alguns manuscritos destinados apenas a registrar as pregações locais. Os cristãos de Roma, por exemplo, conheciam a pregação de Pedro e, possivelmente, conheciam também uma ou outra das cartas de Paulo (2 Pe 3,15-16). Vê-se facilmente que os escritos atuais dos Evangelhos são verdadeiramente o registro catequético de então, a primeira expressão da Tradição Apostólica, aqueles que foram escolhidos e aprovados entre tantos outros (Lc 1,1-2 diz "muitos"):

"A Tradição de que falamos aqui é a que vem dos Apóstolos. Ela transmite o que estes receberam do ensino e do exemplo de Jesus e aprenderam pelo Espírito Santo. De fato, a primeira geração de cristãos ainda não tinha um Novo Testamento escrito, e o próprio Novo Testamento testemunha o processo da Tradição Viva" (Catecismo da Igreja Católica, 83). "Por isso, a pregação apostólica, que é expressa de modo especial nos livros inspirados, devia conservar-se por uma sucessão contínua até a consumação dos tempos. (...) Esta Tradição, oriunda dos Apóstolos, progride na Igreja sob a Assistência do Espírito Santo..." (Constituição 'Dei Verbum', Conc. Vat. II, n.º 8).

Informa Papias que o primeiro Evangelho foi escrito por Mateus em aramaico, que o destinou aos judeus. Vieram outros, inclusive a tradução dele para o koiné, o grego popular de então, que não eram ainda tão difundidos, nem faziam parte de um cânon definido pela Igreja. Somente algumas comunidades tinham uma espécie de compilação mais ou menos aleatória, ao que tudo indica, e não ainda de forma sistemática como hoje: "Foi a Tradição Apostólica que levou a Igreja a discernir quais os escritos que deveriam ser enumerados na lista dos Livros Sagrados" ('Dei Verbum, 8,3). Esta lista completa é denominada 'Cânon' das Escrituras. Comporta, para o Antigo Testamento, 46 (45, se contarmos Jeremias e Lamentações juntos) escritos e 27 para o Novo:

Da mesma forma que então, porque inexistente, para os católicos ainda hoje, "só a Bíblia" não é, nem pode ser, o único fundamento para a fé, eis que não se partiu dela para o que se crê. O que nela se compôs foi o então ensinado pelos Apóstolos. Por isso, fundamental ainda lhes é o conjunto formado por: Tradição + Magistério + Escritura: "Fica portanto claro que segundo o sapientíssimo plano divino a Sagrada Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja estão de tal maneira entrelaçados e unidos, que um não tem consistência sem os outros, e que juntos, cada qual a seu modo, sob a ação do mesmo Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das almas" (Constituição Dogmática 'Dei Verbum', 10)