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sábado, 13 de outubro de 2018



História do medo no ocidente (1300 – 1800)
Jean Delumeau

Não temos história do amor, da morte, da piedade, da crueldade, da alegria.” A queixa do historiador Lucien Febvre, em 1948, muito repetida desde então, tornou-se quase um manifesto da disciplina que se convencionou chama a “história das mentalidades”. Uma das lacunas que o fundador da escola dos Annales deplorava foi preenchida pela História do Medo no Ocidente, obra de 1978 e já hoje um clássico.

Ao tornar objeto de estudo o medo, Jean Delumeau parte da ideia de que não apenas os indivíduos mas também as coletividades estão engajadas num dialogo permanente com a menos heroica das paixões humanas. Revelando-nos os pesadelos mais íntimos da civilização ocidental do século XIV ao XVIII – o mar, as trevas, a peste, a fome, a bruxaria, o Apocalipse, Satã e seus agentes – o grande pensador francês realiza uma obra sem precedentes na historiografia do Ocidente.

Se não se consegue afastar completamente o medo para fora de seus muros, ao menos enfraquecê-lo o suficiente para que possa viver com ele.

            Divide-se em duas partes
            Os medos da maioria na primeira parte e a Cultura dirigente do edo numa segunda parte.

A leitura torna-se agradável a partir do primeiro capitulo e prossegue assim ate o seu final. O nível de literatura não é denso e nem exigente demais, sendo que qualquer leigo pode ler sem praticamente nenhum problema por ser de fácil compreensão e envolvimento com o tema.

As civilizações estão comprometidas num diálogo constante com o medo. Trata-se de colocar em seu lugar um complexo de sentimentos que, considerando as latitudes e as épocas, não pode deixar de desempenhar um papel capital na história das sociedades humanas para nos próximas e familiares.

Três limites do trabalho
1 - Não se trata de construir a história a partir do “exclusivo sentimento de medo”
2 - Fronteiras de tempo e espaço 1348 a 1800
3 - setor geográfico da humanidade do Ocidente

Por que o silêncio prolongado sobre o papel do medo na história?
Sem duvida, por causa de uma confusão mental amplamente difundida entre medo é covardia, coragem e temeridade.

A palavra medo está carregada de tanta vergonha que a escondemos. Enterramos no mais profundo de nós o medo que nos domina as entranhas.
“O medo é a prova de um nascimento baixo” Virgílio, Eneida IV
“A pobreza do povo é a defesa da monarquia... a indigência e a miséria eliminam toda coragem, embrutecem as almas, acomodam-nas ao sofrimento e à escravidão e as oprimem a ponto de tirar-lhes toda energia para sacudir o jugo”. Thomás More
O medo nasceu com o homem na mais obscura das eras e acompanha-nos por toda nossa existência. Jakov Lind
Os homens usam amuletos, os animais não...
Quando nasci minha mãe deu luz gêmeos, meu irmão gêmeo é o medo!

Quem quer que seja presa do medo corre o risco de desagregar-se. Sua personalidade se desfaz, a impressão de reconforto dada pela adesão ao mundo desaparece; o ser se torna separado, outro, estranho. O tempo para, o espaço encolhe.

Os antigos viam no medo um poder mais forte do que os homem, cujas graças podiam ser ganhas por meio de oferendas apropriadas, desviando então para o inimigo sua ação aterrorizante.

O medo tem um objeto determinado aniquilar se pode fazer frente. A angústia não o tem e é vivida numa espera dolorosa diante de um perigo tanto mais terrível quanto menos claramente identificado: é um sentimento global de insegurança. Desse modo, a angústia é mais difícil de superar que o medo.

O ocidente venceu a angústia “nomeado”, isto é, identificando, ou até fabricando medos particulares
Três formas de superação do medo no ocidente. Esquecimentos, remédios e audácias. Dos paraísos aos fervores místicos, passando pela proteção dos anjos da guarda e pela de São José, patrono da boa morte. Percorreremos ao final um universo tranquilizador onde o homem se liberta do medo e se abre para alegria.

Pode parecer desanimador e ate mesmo intimidador com as suas 700 paginas, discorrendo sobre um único tema, que é a historia do medo. Mas observando-se o índice, podemos notar que contem uma ampla diversidade de assuntos, cada qual abordado de forma apropriada e sem perder o fio da meada.

Aborda muitos aspectos como a peste, a Idade Média, o comportamento dos homens de antigamente, as personalidades e os seus retratos psicológicos, as doenças, a morte, as guerras, os boatos e sedições, as revoltas, a fome, os demônios, a Inquisição, os muçulmanos, a Conquista das Américas, a cristianização dos povos, heresias, bruxarias, superstições, etc. Enfim, podemos dizer que aborda uma ampla gama de assuntos, com vastas referencias bibliográficas.

A leitura é altamente esclarecedora sobre vários eventos obscuros da Idade Media, do qual não tínhamos conhecimento nenhum. Por exemplo, o medo do Apocalipse e o Juízo Final que dominou a mentalidade europeia dos séculos XIV até o XVII, que acabou influenciando a História em seu curso quando da Reforma Protestante (e em certa medida podemos observar esses comportamentos ainda hoje), ou então o medo excessivo de Satanás, que também acabou por influenciar o curso da Conquista das Américas.

E também temos interessantes relatos de como surgiu o antissemitismo na Europa, que era esparso e raro até o seculo XII, no qual passou a se intensificar a partir do século XIV, em que esse antijudaismo se tornou “unificado, teorizado, generalizado e clericalizado”. Podemos ver como se originaram os guetos, o que foi feito contra os judeus, como surgiram as desculpas para os massacres e progroms, as justificativas religiosas, quem foram os perseguidores, etc. Dado relevante é o impulso antissemita na Europa que foi dado pelos protestantes com as obras “Contra os judeus e suas mentiras” e “Shem Hemephoras”, escritas por nada menos que o Martinho Lutero. E parte dessas perseguições culminaram no Holocausto de nosso século XX.

Uma outra coisa que eu considero bastante útil é o tratamento dado às mulheres que sofreram e muito nas mãos dos europeus durante os séculos XII a XVIII.

A leitura é altamente recomendável para quem gosta de ler sobre Historia, aprender mais sobre o nosso passado, a influencia desses tempos medievais na construção da moderna sociedade atual e a formação do caráter da civilização Ocidental

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quarta-feira, 10 de outubro de 2018


O pavilhão dos padres – Dachau 1938-1945
Guillaume Zeller

Introdução
 “Lembrai-vos dos presos, como se estivésseis presos com eles.” (Hebreus 13, 3)

Pawel, Alois e Boleslaw Prabucki são irmãos. Nascidos em Iwiczno, na Polónia, em 1893, 1896 e 1902, optam os três por consagrar as suas vidas a Deus tornando-se padres da diocese de Chelmno.
Nesta região, durante muito tempo disputada pela Alemanha e a Polónia, o primeiro torna-se pároco de Gostkowo, o segundo pároco de Gronowo e o terceiro vigário de Mokre.
No outono de 1939, pouco após a derrota da Polónia diante dos exércitos do 3.º Reich, são detidos pelos nazis, motivados pela vontade de decapitar as elites polacas.
Os três irmãos são enviados para o campo de concentração de Oranienburg-Sachsenhausen, a norte de Berlim. A 14 de dezembro de 1940 são transderidos para Dachau, o campo-protótipo do sistema SS, implantado no coração da Baviera.
Pawel, Alois e Boleslaw são desde então os presos 22661, 22686 e 22685. Depois de meses de sofrimentos intensos, esfomeado, esgotado, Alois é o primeiro a morrer a 17 de outubro de 1942 e a desaparecer nas entranhas do crematório.
Menos de um mês mais tarde, a 14 de agosto, Boleslaw foi selecionado para ser gazeado no castelo de Hartheim, o enorme centro de eutanásia instalado na Áustria.
No momento da partida, Pawel, abatido, traça o sinal da cruz sobre a fronte do seu irmão, pede-lhe para abraçar os seus pais e Alois no céu, e assegura-lhe sua chegada próxima entre eles. Boleslaw desaparece. Dezasseis dias depois, a 30 de agosto, Pawel cumpre a promessa e morre em Dachau.
Os irmãos Prabucki são três dos 2579 padres, religiosos e seminaristas católicos, vindos da Europa ocupada, encarcerados no campo de Dachau pelos nazis entre 1938 e 1945. A história destes homens é mal conhecida, oculta no processo concentracionário global.
Por outro lado, eles são eclipsados por duas grandes figuras mártires católicos, assassinadas em Auschwitz: o franciscano Miximiliano Kolbe, morto a 14 de agosto de 1941 com uma injeção de fenol, depois de ter sido deixado dias à fome, e a carmelita Teresa-Benedita da Cruz, nascida Edith Stein, judia convertida, antiga assistente de Edmund Husserl, gaseada em Birkenau no dia 9 de agosto de 1942. Ambos foram canonizados.
Quem sabe, todavia, que em Dachau duas a três barracas em trinta são ocupadas em permanência por eclesiásticos de 1940 a 1945? Elites polacas, opositores políticos alemães, austríacos ou checoslovacos, resistentes belgas, holandeses, franceses, luxemburgueses, italianos... De todas as nações e de todas as idades, padres são reagrupados atrás do arame farpado de Dachau, aplicando um acordo arrancado pela diplomacia do Vaticano ao Reich.
Durante oito anos, as tragédias e os gestos magníficos pontuam o itinerário do clero de Dachau, da tenebrosa marcha forçada da "semana santa" de 1942 ao heroico enclausuramento voluntário de padres nas barracas dos moribundos de tifo, passando pela comovedora ordenação clandestina de um jovem diácono alemão tuberculoso por um bispo francês, visto como marechalista [próximo do marechal Pétain, que governou a França unido ao regime nazi e que depois da guerra foi condenado por traição], honrado depois como "Justo Entre as Nações" no memorial de Yad Vashem, em Israel.
Nunca, ao longo da história, mesmo nas piores horas do terror francês ou da perseguição comunista, tantos padres, religiosos e seminaristas foram assassinados num espaço tão restrito: 1034 deixaram lá a vida.
Além dos itinerários pessoais de que é composta, a história dos padres de Dachau - aos quais se acrescentam 141 religiosos de outras confissões, protestantes e ortodoxas na sua larga maioria - permite uma luz nova sobre o sistema concentracionário hitleriano, sobre o anticristianismo intrínseco do nazismo, e, para lá do estrito campo histórico, sobre a fé e o compromisso espiritual.
Em que é que a experiência dos padres detidos em Dachau se junta à dos seus camaradas laicos? Quais foram os seus privilégios e quais foram os seus sofrimentos específicos. As perseguições empreendidas pelos nazis contra o clero procedem de convicções ideológicas ou políticas? A fé e o compromisso religioso dos padres armaram-nos ou desarmaram-nos face à desumanização seguida nos campos? As suas convicções morais, forjadas pelo Evangelho e a tradição da Igreja, resistiram à perversão dos valores impostos pelas SS? A experiência sofrida pelos padres de Dachau levou frutos ao seio da instituição eclesial, mas também ao exterior, às periferias da Igreja? Retraçar esta história singular, fragmento do drama concentracionário, permite esboçar respostas a estas diferentes questões.

Reagrupados em “blocos” específicos – que conservam para a história o nome de “o pavilhão dos padres”, 1034 deixaram lá a vida. Polacos, belgas, alemães, italianos, checos, iugoslavos: por trás do arame farpado de Dachau, a «universidade da Igreja» é palpável.
Estes homens que, numa Europa ainda cristianizada, eram detentores de um estatuto respeitável, por vezes eminente, viram-se na situação oposta, no meio da fome, frio, doenças, trabalho esgotante, golpes das forças de segurança e experiências médicas.
Alguns cederam ao desespero, outros – a maioria – não se curvaram, talvez apoiados pela sua fé. Partilhando a sorte comum dos deportados, os padres de Dachau esforçaram-se por manter intacta a sua vida espiritual e sacerdotal. Uma capela, a única autorizada em todo o sistema de campos de concentração, proporcionou-lhes uma ajuda considerável.
Esta experiência única na história da Igreja oferece uma nova luz às relações entre o nazismo e o cristianismo. Mais de 70 anos após a sua libertação, o campo de concentração de Dachau continua a ser o maior cemitério de padres católicos do mundo.

Crítica
Frederic Le Moal (lelitteraire.com)
É raro que um livro de história suscite emoções. É todavia o caso do estudo original de Guillaume Zeller sobre o calvário sofrido pelos padres católicos no campo de concentração de Dachau, o primeiro dos campos criados pelos nazis e o último libertado.
O conteúdo propriamente histórico da obra reside nas informações preciosas sobre as perseguições nazis contra a Igreja católica e os seus padres. A força do ódio anticristão, consubstancial ao anti-semitismo, a par da resistência espiritual mas também política do clero, impelem os dirigentes nazis a multiplicar as prisões de sacerdotes. Num primeiro tempo, a repressão abate-se sobretudo nos territórios ocupados, depois, a partir da guerra, sobre a Alemanha. Ao início disseminados em vários campos, os padres são reunidos, sob pressão do Vaticano, em Dachau. Aqui será o seu Gólgota.
É neste campo que os padres conhecerão o martírio dos outros deportados: a fome, a violência, as experiências médicas atrozes, mas também humilhações ligadas ao seu estatuto de homens de Deus e servidores da Igreja católica. Em páginas muito fortes, Guillaume Zeller descreve o sadismo das SS e dos seus sequazes, as torturas, a banalização da morte, a devastação do tifo. Nada faltou.
Mas as páginas sem dúvida mais emocionantes situam-se na última parte do livro. O autor dedica vários capítulos à intensidade da vida religiosa em torno da capela criada no interior do campo. Os padres, acompanhados por um bispo francês deportado por factos relacionados com a Resistência, conseguem celebrar missas e, sobretudo, distribuir a Comunhão aos prisioneiros, mantendo acesa uma vida sacramental que não se suporia. Um jovem chegou mesmo a ser ordenado padre.
Aqueles que duvidam dos benefícios da liturgia anterior ao Concílio Vaticano II, ficarão talvez convencidos pela união forjada pelo latim. Como escreve um sobrevivente, o fato de o padre dizer as mesmas palavras latinas que todos os seus irmãos no sacerdócio, à mesma hora, repetidas no mundo inteiro, faz-lhe esquecer o inferno do campo de concentração. E que dizer do poder da hóstia escondida nas vestes e do conforto da oração?
Este livro supera a primeira impressão que poderia dar (uma soma de testemunhos). Ele fará descobrir a numerosos leitores que os padres católicos foram também engolidos no sistema concentracionário nazi, e sobretudo que nunca estas vítimas duvidaram da presença de Deus, mesmo naquele inferno sobre a terra.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018


Vinde benditos do meu Pai.

“Omu mwacilingilile umwe wakuli ava vambumbwani, cipwe ava vavandende cikuma, mukiko vene mwacilingile kuli ami” (Mt 25,40)

Graças, grato, gratíssimo... Ter oportunidade de vivenciar o Evangelho em outra cultura foi oportunidade de reconhecer a Providencia Divina que acompanha todo missionário, pois nossa capacidade intelectual ou financeira não consegue responder a muitas demandas. Somos levados a aprofundar nossa humildade se desejarmos ajudar ou penetrar mais na cultura que nos recebe. Celebrar e cuidar da esperança dos mais sofridos é “missão de todos nós”, mais ainda para nós missionários sacramentinos, pois “somos devedores do Evangelho a todas as pessoas, especialmente aos mais pobres que somos enviados a evangelizar” (Constituições SDN 79)
Fazer parte de uma nova história para muitas pessoas gera uma alegria missionária sem medidas; perceber o ministério sacerdotal como fonte de integração e esperança. Alegria também de crescer como pessoa, pois viver em uma cultura diferente nos tira de nossa zona de conforto e nos dá novas interpretações sobre nós mesmos e as relações que estabelecemos com a sociedade... a vida ficou mais simples depois de viver estes 6 anos em Angola. Alegria também de saber que não estamos sozinhos nesta missão, que encanta, desafia e estimula muitas pessoas, alegria de perceber o quanto esta missão é mais que dos Missionários Sacramentinos.
A missão em África para nos Sacramentinos é muito significativa, pois estamos nos abrindo ao clamor da Igreja que vem desde os tempos dos Apostólicos: "ide por o mundo e pregai o evangelho..."
“Vinde benditos de meu Pai.” Ser acolhido com esta frase é o grande objetivo do cristão, ter colocado em prática os ensinamentos de Jesus no dia a dia, na obra missionária, garantir a vida em plenitude para todos. A gratuidade da missão, a alegria de servir, o amor ao próximo são nosso passaporte para entrar no Reinado de Deus.
Um grande passo missionário está sendo realizado este ano em nossa congregação, a continuidade da missão em Angola foi uma das prioridades do XVI capítulo geral da congregação, que decidiu fortalecer nossa presença missionária, serão três missionários sacramentinos nesta missão, Pe. Odésio Magno da Silva, que está a 4 anos, Pe. Geraldo Magela de Lima Mayrink e Pe. Valdecir Paulo Martins. Onde há um sacramentino toda congregação se faz presente. Nosso desejo é sermos testemunhos do amor de Deus revelado por Jesus Cristo na construção do Reino de Deus. Quanto mais Sacramentinos se deixarem encharcar numa outra cultura, sendo hóspedes na casa do outro, mais eficaz será nosso caminho missionário. A vivência da fé, da partilha, da solidariedade, da comunhão que vivemos enquanto missionários sacramentinos é o que desejamos oferecer a toda cultura que nos recebe.
Nosso desejo também é oferecer a todos os leigos e leigas que conosco partilham a missão de eucaristizar a mundo do jeito de Maria a oportunidade de ter um caminho novo e desafiante para nosso testemunho de discípulos-missionários de Jesus Cristo. Por isso desejamos contar com vossas orações, por estes irmãos que estão nesta frente missionária em Angola.
Vivemos na Igreja Latino-americana o clamor da missionariedade no contexto da conferência de Aparecida, no impulso missionário de uma Igreja em saída, para atrair as pessoas através de nosso amor a Cristo e a Igreja estimulado pelos escritos do Papa Francisco. Queremos oferecer a Igreja em Angola, precisamente a Diocese de Lwena, nosso jeito de viver a fé em Jesus Cristo, sermos testemunhas do Reino de Deus e aprofundar o sentido missionário de nossa congregação.
A missão além fronteiras tem seu preço, fazer esta passagem para outra realidade sócio-politica-cultural tem muitas exigências. Sim, existe o temor, os familiares dos missionários vivem uma certa “angustia”, pois não estão perto dos que amam e inseguros por não ter muitas informações sobre as condições de vida em que estão inseridos. O medo faz parte da condição humana, ele nos faz mais atentos a realidade em que estamos mergulhados, nos torna mais criativos diante das crises que vivemos, nos torna mais orantes, confiante na Graça e na providencia divina; diferente do pânico ou terror que paralisa a pessoa.
Assumir outra cultura é assumi-lá como um todo; as conquistas sociais, as políticas publicas que a sociedade brasileira possui São frutos de nossa construção histórica. Ao ir para outra cultura devemos ter a consciência de “perder”, deixar estes direitos adquiridos. O medo de ficar doente, do poder político, das crises econômicas, da falta de estruturas sociais...
O missionário se prepara para enfrentar com criatividade os temores. O tempo de Deus é de Deus e o nosso tempo é o nosso, procurar viver como bons hospedes na "casa" de nossos anfitriões, com tudo que eles tem de virtudes e de limites, pois as mesmas alegrias e esperanças, as tristezas e angustias desde povo também serão as do missionário. Toda vez que fizestes isto a um deste meus irmãos mais pequeninos foi a mim que fizestes. (Mt 25,40).
            Que Maria, Nossa Senhora da Eucaristia, Mãe de Jesus, nossa Mãe e Mãe da Igreja, seja e estimulo para nossa ação missionária deste lada do oceano atlântico ou do outro lado em Angola. Que o Servo de Deus Pe. Julio Maria de Lombarde seja nosso exemplo de missionariedade.
Tumenu Mwata vakakuzata vamalunga namapwevo muwande wenu.
Mwomo Wande wenu waunene vakakuzata vamalunga namapwevo vavandende.
Envia Senhor trabalhadores, homens e mulheres para vossa lavra.
Pois a lavra é grande, os trabalhadores homens e mulheres são poucos.

quarta-feira, 4 de abril de 2018


A FORÇA DA PALAVRA OUVIDA E ANUNCIADA

Não são palavras que possam ser ouvidas, mas seu som ressoa e se espalha por toda terra... (Sl 19,5)

Quando desejamos aprender procuramos lugares seguros para obter informação e formação de confiança, instituições com qualidade comprovada, livros e enciclopédias consagrados... todo este saber torna a pessoa especialista em determinados assuntos.
 O que aprendi na convivencia com alguns povos angolanos estão em outra dimensão de conhecimento, vivemos sobre o poder da racionalidade, outra compreeensao logica do tempo e do espaco, estar atento ao “molho” cultural em que se esta inserido é fundamental para apreender valores e refletir sobre a cultura que me formou ou formatou.
 Com estes artigos pretendo partilhar vivencias que acolhi na apredizagem com pessoas e situações para cultivar a proximidade de Deus e das pessoas, pois partilhar a missao aquece o coração.
Ao longo de 06 anos (2012 a 2017) pode conhecer e participar de momentos unicos de aprendizagem oferecidas por estas situações dramaticas, engraçadas e profundamante espirituais. Em cada convivio, em cada perscepção do olhar, em cada palavra ouvida ou promunciada numa cultura que não é a nossa de origem, acontece um novo, um maravilhar-se pela simplicidade e facilidade deste novo aprendizado recebido ou transmitido 
A revolução cultural que arancou da tradição oral a primasia da transmissao do conhecimento, gestou e pariu uma forma de aprendizagem “bancaria”, onde posso depositar todo conhecimento em um acumulado de folhas de papel, pois esta seguro e ninguem pode ensinar de forma diferente, pois já parte do presuposto que pensar diferente do livro já é errado.  
Na transmissão do conhecimento da tradição oral percebe-se que o mais importante é mesmo o individuo, a pessoa, sendo portador de uma mensagem decorada (decoração – de coração) leva ao coração do outro, transmite mais que palavras presas no papel , mas tem possibilidade de transmitir o imaterial, o sentimento e a emoção da força que cada palavra tem e carega dentro dela mesma.
Instruir uma pessoa nesta forma de transmissão demanda tempo e desejo. Inculcar conhecimento, valores e tradições exige repetição, era o método de ensino das culturas de tradição oral, uma repetição que inspirava a guardar as palavras como um jogo, um delicado jogo da verdade e sensibilidade que estao além da repetição mecanica de frases ordenadas.
Na tradição angolana aparece a figura do “ngueji”, (mensageiro) o que trouxe a mensagem ou foi enviado a mensagem. (Os missionários recebem também este nome, pois são portadores da mensagem de Deus para este povo).
O que é de grande importancia para o missionario é a capacidade de ser ouvido, ter a palavra multiplicada e compreeendida pelos destinatários de sua missão. Conseguimos muitos semeadores/multiplicadores destas palavras, pois onde temos nossa missão, os meios “modernos” de comunicação ainda não chegaram, a “mensagem” enviada como carta se transforma em documento, extensão da própria pessoa que escreveu, com o poder de gerar proximidade e segurança atraves daquelas palavras...
Por muitas vezes recebi estes mensageiros na casa paroquial, vindos das nossas comunidades, das mais perto cerca de 20 km  as mais distantes 150 km, trazendo mensagens escritas, (por não saber falar portugues) ou mensagem falada. “Senhor padre, tenho uma mensagem para vós”, esta é a expressao usada para aproximar, logo após se apresenta. Mensagem entregue, o ngueji fica esperando a resposta para levar de volta a sua comunidade ou a pessoa que o enviou.
Quando ocorre um encontro entre duas pessoas que são portadoras desta cultura oral acontece ao belo, a partilha de vida, dos fatos, das estruturas... o mujimbo, notícia sobre o que ocorreu durante a ausencia de uma pessoa, a atualização se faz de maneira pausada e com expressões de agradecimento por tais informações partilhadas, quando aqueles dois seguem os caminhos que a história lhes oferece, encontram outras pessoas e lhes oferecem o mujimbo acrescentado por aquele encontro anterior, assim as informações e conhecimentos são transmitidos com grande naturalidade e simplicidade.
Resgatar a importancia da presença física das pessoas pela força da palavra dita e ouvida é uma necessidade urgente para nosso tempo, tao recortado pela frieza das telas dos smartfones, que só conhecem o calor da bateria, sem calor humano iradiado desta fonte.
Influenciados pelo tempo e por outras formas de interesse humano as mensagens verbais também vão perdendo valor nestas culturas, pois a confiança na palavra da pessoa esta prejudicada pela quantidade de informação ou de pessoas que desejam aparecer e por isso aparecem as notícias falsas, fazendo desabar toda uma tradição cultural milenar e saudável que fez tal cultura pernanecer até nossos dias.
A religião contribui muito para que está tradição da palavra dita e ouvida esteja presente em nosso meio, grande fruto das Comunidades Eclesias de Base, é este poder de dizer a própria palavra  e ouvir a palavra do outro para estabelecer compromissos comuns pela força da palavra partilhada... resistir pela fé nos torna profetas da escuta e da fala, profetas da presença, profetas da atenção a pessoa concreta, fazendo resoar a força da Palavra com nossas atitudes.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Quando o irmão passa, fica a Graça.

Quando o irmão passa, fica a Graça.

 

A graça da visita transborda o visitado, ao sermos visitados somos reconhecidos como parte que forma o todo, manifestação plena de comunhão e fraternidade.

Nossa comunidade Pe. Jésus Moreira Rezende, ao receber a visitacanônica de nosso “mais velho” Pe. Aureliano de Moura Lima, sentiu este tempo de graça chegar e permanecer conosco... presença com gosto de quero mais... “Senhor, fica mais um pouco conosco (Lucas 24, 29)

Depois de um bom tempo de preparação, idas e vindas de documentos, acertos e ajustes na agenda... “Agradecemos muito”, como nossos irmãos se expressão aqui, pois com certeza foi uma viagem de superação, ser hóspede na casa do outro exige renúncia, paciência e bom senso... 

Atravesar o atlântico, pode até ser uma aventura, mas para quem vem com o que tem no coração e não com o que tem nos bolsos, percebe logo que se trata de uma kenosis, não só o aterrar do avião, mas descer por que quer encontrar o outro, não veio para encontras coisas, lembrancinhas, selfs, nem mais um carimbo no passaporte. Em África, berço da humanidade, somos impactados pelo mistério de tradições milenares, linguagens que resistem a aldeia global, pessoas de sorriso fácil e bonito, por uma vida bucólica e despretenciosa... segundo o conceito morderno de civilização.

Em Angola, podemos parafrasear Guimarães Rosa: “Minas são muitas minas” – Angola são muitas Angolas, a diversidade cultural, climática, econômica, estrututal e social são patentes; os olhos do visitador podem ficar confusos, mas aquele que vem visitar pessoas vê com o coração, “pois o essencial é invisível os olhos” (Saint Exupery)

Pelas estradas de Lwena a Cavungo (760 km, pelo tempo da viagem, 12 horas, daria para atravesar o atlantico e chegar em Manhumirim) a conversa e cultivo das saudades foi acontecendo, “pois somos uma fraternidade” (Const...). 

Permanecemos pouco tempo em casa, pois “temos sede de pessoas”, a providência Divina nos levou até Calunda local onde Frei Mariano, Frei Gilberto e Frei Gonzalinho de feliz memória, deramaram suor, lágrimas, sangue... até a própria vida, não por heroismo ou voluntarismo, mas por que “ser missionário é ir até o fim.”(Dom Gonzalo Lopes Maranhon, OCD – Frei Gonzalinho, como gostava de ser chamado, depois de 40 anos de episcopado em Sucumbios, Equador, veio ser semente missionária na “pariferia das periferias.”

De volta a Cavungo, literalmente lavamos a roupa suja, pois iriamos ficar mais quatro dias fora de casa, outubro é o mês dos batizados em nossa paroquia, assim Pe. Odésio seguiu para as comunidades da comuna de Lóvua, Pe, Renato e Pe Aureliano seguiram paras as comunidades de Caianda... 210 batizados outros 18 adultos, recebidos como católicos vindos de outras igrejas...

Havia certa preocupação com nossa visita, pois “o novo vem com dor de parto”, nos cercamos de alguns cuidados e laçamo-nos, pois a missão pertence a Deus. Nosso vistador esteve a vontade, soboreou xima com as mãos, peixe seco, lenga–lenga, carne de cabra do mato... entre outras varições da consitência do xima. O banho é uma aventura a parte... domir nos faz lembrar do chamado de Jesus: “o filho do homem não tem onde reclinar a cabeça”, a mochila que levamos as roupas serve se traviseiro, o saco de dormir é o colção (por cima do cisalo), lençol e cobertor... nosso visitador foi batizado e batizador, acolheu na fé tantos irmãos e se tornou pai de a quantos recebeu pela graça batismal, tocou e foi tocado com a graça de evangelização como encontro, ofereceu-se de graça e recebeu a Graça das oferendas, galos, galinhas, mandiocas, bode, bombó...

As crianças como sempre, estão atentas aos detalhes de quem chega, e são muitas por toda parte, rapidamente estavam imitando a famosa gargalhada do nossa mais velho... a graça que fica.

Foram dias de profunda comunhão e partilha de projetos, expectativas, angústias, alegria e esperanças, restamos cantar “oh vem Senhor não tardeis mais, vem saciar o seu povo de paz.”

 

Comunidade Pe. Jésus Moreira Resende, SDN

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Kwoko kutemo, kwoko ku njimbu, ami tchihase kulima

Para que dê sementes ao semeador. Is 55,10

Kwoko kutemo, kwoko ku njimbu, ami tchihase kulima.
(Mão na enxada, mão no machado, não posso trabalhar.)

O trabalho missionário é um constante semear, como dizia um grande missionário sacramentino, Pe. Geraldo Silva de Araújo SDN: “Colega, temos que semear, semear e semear.” Com esta motivação estamos a 4 anos semeando a riqueza da fé cristã e a comunhão com a Igreja nesta parcela do povo de Deus que está na diocese de Lwena, em Angola. 
No trabalho devemos fazer opções: o que plantar, como plantar, e onde plantar, pois não podemos lançar as sementes ao vento, deixando ao acaso a tarefa de produzir alimento e sementes ao semeador e nem ter as duas mãos ocupadas pelo ativismo, mas ser presença ativa e orante... contemplativos na ação. Ao estabelecer o método de trabalho devemos nos concentrar nas ferramentas para realizar a missão, saber usar as ferramentas é sinal de compreender a necessidade do trabalho e a melhor forma de realizá-lo. Cultivar a paciência ao evangelizar, para não ter gestos vãos e palavras insignificantes, “Os missionários podem e devem dar pelo menos o testemunho da caridade e da beneficência de Cristo”. (AD 6). 
O princípio fundamental da evangelização é anunciar a vida e a ressureição de Jesus, formando discípulos missionários, multiplicadores das sementes que receberam. “Entre a proximidade e a distância de Deus, medeia a sua Palavra, que desce do céu para realizar e revelar a salvação. É como chuva: benção primária, dom ativo que desata atividade, rega, fecunda e faz gerar. Seu ritmo não é o dá eficiência, mas o da fecundidade. A chuva põe em movimento um ciclo: alimento hoje, semente para a colheita amanhã.” (Bíblia do Peregrino)
Nossa opção em semear a Palavra de Deus através dos grupos de reflexão e da formação de lideranças tem nos ajudado a perceber a força de Deus entre os simples, mesmo não compreendendo perfeitamente a língua portuguesa, surge a oportunidade de conversão e seguimento a Jesus Cristo, deixando de lado algumas práticas culturais que não estão em acordo com a vivência cristã. Ajudamos a pessoa perceber que sua vida tem a ver com Deus e que Deus tem a ver com a sua vida; diminuindo a distância entre as pessoas e Deus através da Bíblia e dos sacramentos da Igreja, em especial a Eucaristia.
O “senso da eucaristia”, no dizer do Pe. Júlio Maria, equivale àquela disposição interior dos primeiros cristãos em celebrar o mistério pascal, comungar e viver a radicalidade do seguimento a Jesus Cristo. Ter “senso da eucaristia” significa, no pensamento julimariano, saber a importância, o valor e a necessidade da eucaristia na vida do cristão. É saber que a eucaristia é mistério central da vida cristã, sua finalidade é alimentar, nutrir e formar aqueles que deste mistério se aproximam. Por outro lado, aquele que participa do corpo e sangue de Cristo é convidado a assimilar, se identificar com aquilo de que se alimentou. O “senso eucarístico” evita certos abusos, a saber: fazer da eucaristia uma devoção entre tantas, fazer da eucaristia um amuleto de sorte ou ficar “catando” missas durante o dia para “assistir” e “comungar” sem uma devida preparação. O Pe. Júlio Maria percebendo estes desvios, afirma o seguinte: “Não basta comungar, é preciso comungar bem”. “Não é o número de comunhões que vale; é a aplicação para fazê-las bem, que agrada a Deus”.
 “A evangelização é uma diligência complexa, em que há variados elementos: renovação da humanidade, testemunho, anúncio explicito, adesão do coração, entrada na comunidade, aceitação dos sinais e iniciativas de apostolado. Estes elementos podem afigurar-se contrastantes. Na realidade, porém, eles são complementares e reciprocamente enriquecedores uns dos outros. É necessário encarar sempre cada um deles na sua integração com os demais” EN 17
A evangelização deve voltar as suas raízes profundas na “alegria do Evangelho” o júbilo de acreditar em Jesus Cristo, Filho de Deus Salvador. Ela compromete-nos a avaliar sempre os nossos recursos estruturais e espirituais, primeiro dos quais é um “saber crer cristão”, capaz de esclarecer a própria questão do homem e de pôr em evidência que o gesto de crer e constitutivo da experiência humana de viver juntos. (Mc 8, 1-10)
A Igreja é grande pela tradição e pela experiência duradoura no tempo, é capaz de congregar homens e mulheres de todos os continentes, de todas as culturas e de todos os ambientes, levando a coexistir no seu seio as sensibilidades espirituais mais diversas. É grandiosa na sua vontade de se aproximar dos distantes, daqueles que a sociedade afasta ou que não foram devidamente evangelizados.
Cada cultura acolhe a Boa Notícia de Jesus que a Igreja comunica de uma forma e com intensidade diferente. A Igreja tem a missão fundamental de evangelizar, a forma de realizar esta missão deve estar em constante renovação para que os destinatários em qualquer tempo e lugar recebam com gratuidade está Boa Nova. A evangelização é tarefa e missão, que as amplas e profundas mudanças da sociedade atual tornam ainda mais urgentes. Não podemos nos limitar a evangelizar de maneira decorativa, como que aplicando um verniz superficial, segundo a fórmula sugerida por Paulo VI. Não podemos nosso contentar com uma limpeza de fachada nem com um marketing missionário. A nossa identidade de crentes cristãos é conferida pela relação com o Deus da vida e da história. Não depende daquilo que possuímos, do que sabemos, e nem sequer daquilo que fazemos. Nasce da justificação pela fé como dom gratuito de Deus em Jesus Cristo. 
O testemunho da caridade, o serviço gratuito à humanidade, o compromisso a favor dos pobres, a cooperação para viver todos unidos constituem o testemunho que os cristãos devem dar do evangelho de Jesus Cristo e do seu poder libertador. O Papa Francisco recorda-nos “Encontrareis a vida dando a vida, a esperança dando esperança, o amor amando”. (Carta Apostólica do Ano da Vida Consagrada 04)
A urgência do evangelizador é a pregação como resposta ao mandato de Cristo: ide e evangelizai... não podemos nos deixar intimidar pelas dificuldades estruturais e humanas, a missão é de Deus. Na Igreja todos nós somos um povo, todos nós somos responsáveis pela missão. A missão é algo que não separamos do nosso ser (1 Cor 9,16). “Eu sou uma missão nesta terra, e para isto estou neste mundo. É preciso considerarmo-nos como que marcados pelo fogo por esta missão de iluminar, abençoar, vivificar, levantar, curar, libertar” (EG 273).
O Evangelho é para todos os tempos, mas cada tempo tem suas próprias urgências. Cada época precisa de um estilo de evangelização, de um tipo de evangelizador. A missão evangelizadora é jubilosa, produz alegria. A evangelização é uma questão de amor, de paixão por Jesus Cristo é pelo próximo. O amor apostólico consiste não apenas em tomar a iniciativa e em dar, mas inclusive em deixar-se surpreender e em receber. Os destinatários da missão são também sujeitos ativos. (Mc 2,13-17)
Não é suficiente propor a fé, trata-se de gerar crentes. (Mt 28,19-20) Gerar sementes para o semeador, gerar não significa transmitir uma mensagem, mas sim suscitar a vida, a vida em todas as dimensões. Sinal distintivos dos cristãos é estar presente nos lugares onde a vida é precária e ameaçada, nos lugares de resistência a tudo aquilo que degrada o ser humano, nos lugares onde possa testemunhar a fé cristã com uma força vital, de vida interior, assim como de convivência e de solidariedade. Somente gerando crentes, a Igreja poderá gerar-se a si mesma. Só permitindo que outras pessoas façam a experiência de um Deus que “se dirige aos homens como amigos”; que Igreja reconhecerá a si própria como fruto de Deus, entendendo a si mesma como uma Igreja de geração, chamada a nascer juntamente com aqueles dos quais se aproxima em nome de Jesus Cristo.
Os frutos que desejamos gerar, colher, alimentar e deixar sementes são: amor pela Palavra de Deus, senso da Eucaristia, formação e multiplicação das lideranças, visitadores missionários, auto sustentabilidade, gerar outras comunidades, formação liturgia, melhorias estruturais...
Grande oportunidade para nosso estilo de evangelização é a motivação da CEAST (Conferência episcopal de Angola São Tomé) que neste ano propõe a temática: a paróquia como centro da evangelização, tivemos oportunidade de elaborar subsídios para estudo bíblico sobre os temas mais relevantes para este ano, oportunidade de multiplicar o amor pela Palavra de Deus.
Em comunhão com a missão das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora do Amparo de promover alfabetização e reforço escolar, práticas domésticas e culinárias entre a juventude; queremos recuperar e melhorar a autoestima de nossos irmãos e irmãs.
Não podemos visualizar o comportamento alheio livre de sua própria predisposição cultural, nem o conseguiriam aqueles que estão a observar o nosso comportamento. Podemos nos adaptar com sucesso ao ambiente cultural desconhecido, ao observar, ouvir, exercitar um pouco de paciência e tolerância e, silenciosamente, modular nosso próprio comportamento. Enquanto isso, procuraremos discernir a dádiva de Deus nesta vida enredada, muitas vezes confusa, e seguir Cristo, que “abre passagens onde a humanidade se torna complicada”. Pela misericórdia de Deus poderemos ouvir o que Isabel disse a Maria: “feliz és tu que creste, porque se cumprirá o que o Senhor te anunciou” (Lc1, 45). Abrir passagens não é a mesma coisa que encontrar soluções. Abrir passagens com Cristo, no coração da nossa vida enredada, tem algo a ver com a salvação.

Pe. Renato Dutra Borges, SDN
Pe. Odésio Magno da Silva, SDN






















segunda-feira, 23 de março de 2015



Meya a kuya kamuy, vathu kakulitakana.

“A água passa uma só vez, mas as pessoas voltam a encontrar-se”.




Evangelização como encontro.

Chegando ao fim da estação das chuvas no Alto Zambeze (novembro a março), já podemos retomar nossas atividades de evangelização/missão em todas as comunidades, este distanciamento nos deixa ansiosos pelo reencontro com nossos irmãos e irmãs nas comunidades, catequistas, catecúmenos... sentir de perto erupção dos grupos de reflexão bíblica, o surgimento de novas comunidades como desejo de proximidade com os sacramentos e a vida cristã. A missão principal é estar e ser com as pessoas, nos encontros e reencontros que a dinâmica da vida nos oferece.

A água é sempre sagrada, e o tempo das chuvas não é obstáculo, nos oferece tempo para confrontar com nossos projetos e confiar na Providência Divina, é tempo para estar também próximo ao poço, sentado com Jesus e deixar que Ele nos ajude a escavar mais profundo nosso coração e nossas motivações na busca da água de Vida plena para nós e para a Vida Total dos povos que conosco estão na campanha/mutirão de construção desta Igreja, poço de água viva. (Jo 7,38)

Com a chuva vieram missionários e missionárias para participar da constante escavação deste poço da comunidade. Recebemos a visita do Pe. Luís Carlos Ramos, SDN que em nome do conselho dos Missionários Sacramentinos de Nossa Senhora veio ao nosso encontro para nos motivar na missão, veio também o Pe. Odésio Magno da Silva, SDN para vivenciar o dia-dia deste poço que gera água da vida. Com as chuvas também chegaram para missão em Cavungo, mais irmãs da Congregação das Franciscanas de Nossa Senhora do Amparo; Ir. Ziula, FNA e Ir. Angela, FNA na companhia da Ir. Cleusa, FNA que em nome do conselho da congregação veio visitar suas irmãs que estão em solo angolano, pois as águas passam mas as pessoas se reencontram.

Com as chuvas também foram reconduzidas para outras missões o Pe. João Lúcio Gomes Benfica, SDN e Ir. Vininha, FNA; que participaram ativamente da escavação deste poço ao encontro da água da vida e do reencontro das pessoas. A missão é de Deus e onde Deus envia ali está a missão.

No tempo chuvoso permanecemos como “sentinelas” (Sl 127,1), figura típica do mundo bíblico, trata-se daqueles e daquelas que à noite tinham a missão de vigiar e despertar, papel que cabia as sentinelas e aos sacerdotes que oravam no Templo. É estar inquieto, o ser humano inquieto não se fecha no imediato da existência humana, mas deixa uma possibilidade ao mistério para interrogar a si mesmo. Sem esta inquietude perde-se a noção do futuro e o princípio da esperança e o poço fica vulnerável (Mc 13, 37; Rm 13, 11-13). Diz o filósofo Julien Green ao dar sentido a sua perseverança na fé: “Enquanto estiverdes inquietos podereis dormir tranquilamente”.

Sentinelas cuidam do poço não dando espaço aos “monstros”, pois os que sujam o poço da comunidade vem de longe (falsos profetas, feiticeiros, tradicionalismos, tribalismos...). Segundo um antigo conto tradicional angolano, havia junto de um pequeno rio, uma grande aldeia dividida em dois setores dum e outro lado do rio. Os habitantes tinham aberto junto a nascente um grande poço comum e ali iam tirar água para beberem e cozinharem. A partir de certa altura, o poço começou a aparecer sujo, e os habitantes dum setor começaram a culpar os do outro e a insultarem-se mutuamente, então os ‘mais velhos” reuniram-se e resolveram envenenar a água do poço, ao outro dia, de manhã, foram ver o resultado e encontram dentro do poço, morto, um monstro anão da floresta, que ali vinha todas as noites beber e banhar-se, precisamente com a intenção de criar o desentendimento entre os dois setores da aldeia, quando viram o monstro, os habitantes concluíram: kavunduli máxima kusuku akakatuka! “Afinal, quem suja o poço vem de longe”. (Folclore angolano – Quinhentos contos Quiocos)

O tempo da chuva também é oportunidade de olhar para as pessoas e suas necessidades, avanços e limites... a missão exige pureza no olhar, distinguir pessoas que procuram a graça de Deus de “monstros anões da floresta”... confiamos na capacidade que temos de formar discípulos-missionários, é a oportunidade para  vivenciar na comunidade, na família, no trabalho e entre os amigos, e sentir se a evangelização está penetrando no cerne da cultura ou se está somente na superfície. “A compaixão, olha-a no rosto, a fome, olha-a na barriga”. (Kheke yitale kumeso, zala yitale ku mujimo). A Igreja é um grande poço, a uns atrai pela barriga (necessidades) e são nutridos pela compaixão de Jesus, outros motivados pela compaixão/fé são nutridos pelo amor a humanidade, a Igreja é sempre acolhida e envio, sempre dinâmica. (1Jo 4, 20-21; Mt 10, 40-42)

O “poço” deve ser sempre cuidado, limpo e mantido em boas condições afim de continuar a ser canal de encontro entre a água e luz, caso contrário a Igreja pode adoecer. A liturgia como serviço a vida é fonte e ápice da fé cristã, celebrar a eucaristia no contexto africano com forte expressão corporal é oportunidade de chegar ao coração das pessoas. A Igreja necessita ser lugar de esperança, fonte de vida, não pode despertar falsas esperanças, “abandonaram-me, a Mim, fonte de água viva, para cavar cisternas, cisternas fendidas que não retém a água”. (Jr 2,13). A liturgia não pode ser um apêndice na vida das pessoas, com encontros provocados por mera obrigação dominical.

Na mentalidade religiosa africana está bem implantada a convicção de que os assuntos do mundo humano são controlados por forças sobrenaturais superiores e por pessoas com “armas invisíveis do mal” controlados por feiticeiros. Para superar este paradigma e ter uma autentica compreensão do sobrenatural é necessário “uma auto comunicação de Deus que seja completa, definitiva e pessoal em Jesus Cristo”. Em carta de motivação para as reflexões sobre o sínodo diocesano, nosso bispo D. Tirso Blanco recomenda: “Toda homilia deveria incluir uma seção apologética, todo o grupo ou comunidade cristã deveria incluir no seu programa de atividades o anúncio de Cristo aqueles que não o conhecem ou que o conhecem mal e precisam uma evangelização integral ou de uma reevangelização”.

Ao trabalhar na escavação/evangelização não podemos ficar presos a formas e catequeses “decorativas’ e unicamente doutrinarias, devemos apresentar por meios simples e eficazes a pessoa de Jesus e favorecer a cada pessoa um encontro verdadeiro com a fé cristã (Jo 1,35-42). Não podemos deixar as pessoas passarem como água, temos que provocar os encontros Pessoa/Pessoa; Pessoa/Outro; Pessoa/Deus e Pessoa/Mundo,/  tendo Jesus Cristo como mediador e a Igreja como espaço que favoreça este encontro.

Em nossa realidade eclesial (extremo leste de Angola) onde o cristianismo é minoria e de superficialidade é essencial apresentar a identidade que é própria de Jesus histórico sem centrar demais no Cristo místico, para demostrar que não é um simples mito dentro da cultura africana.

Não podemos nos contentar com a água do JARRO, pois “meya a kumbata kexi kuhwisa phwila” (água transportada não mata a sede), mas devemos estar atentos ao JORRO que é a fonte de “água viva”, que passa pelas veias da terra, procurar estas veias exige trabalho meticuloso e perseverante, o poço comunitário – Igreja, é fruto de um Dom e de trabalho paciente e tenaz, o poço torna-se lugar no qual, ao movimento descendente da escavação corresponde ao movimento ascendente da água, ao esvaziamento (kenosis) paciente do canal. Se vamos ao encontro de Jesus ele vem primeiro ao nosso encontro.(1Jo 4,19)

Assim a comunidade torna-se abertura que faz nascer a água, lugar de regeneração, “oásis no deserto da vida” poço junto ao qual Jesus senta para escavar o coração da pessoa e levá-la ao encontro profundo de si mesma. (Jo 4, 4-30)

Só Jesus pode fazer do jarro fonte de vida e de alegria, pela intercessão de Maria, que sentindo a necessidade da alegria que o encontro humano deve ter, foi cavar no poço de Jesus e animar outras pessoas na missão. Que nossa missão entre os africanos seja para servir, pois quem serve, fazendo o trabalho de encher os jarros de água, sabe de onde vem o vinho melhor que produz alegria do encontro das pessoas. Que sejamos servidores motivados pela palavra de Maria mãe de Jesus: “fazei tudo que Ele vos disser”. (Jo 2,1-12), pois a água passa, mas as pessoas voltam a encontrar-se!

                                                                                                                  Pe. Renato Dutra Borges, sdn
                                                                                                               Pe. Odésio Magno da Silva, sdn
                                                 Paróquia Santo António de Cavungo - Alto Zambeze, Moxico; Angola