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segunda-feira, 6 de julho de 2026

Chamado de Mateus

“Não há santo sem passado, nem pecador sem futuro”: um chamado à missão.

      


  Durante o retiro anual dos Missionários Sacramentinos de Nossa Senhora, o pregador, Dom Itacir, recuperou a frase usada nas catequese que Papa Francisco utilizou para refletir sobre o chamado de Mateus. 

 Há frases que carregam mais teologia do que muitos tratados. Esta é uma delas: 


“Não há santo sem passado, nem pecador sem futuro.” 


          O Papa Francisco a citou, não como invenção sua, mas como um “bonito ditado” que ouviu um dia. E talvez seja justamente por isso que ela tenha tanta força: é sabedoria já amadurecida no coração cristão, confirmada pelo Evangelho.

         Mas aqui, neste espaço, quero ir além da beleza da frase. Quero perguntar: o que ela exige de nós? Porque uma verdade dessas, se compreendida a fundo, não pode ficar apenas na admiração. Ela se torna missão.

O Evangelho por trás do ditado

          A cena é conhecida: Mateus, cobrador de impostos, sentado na sua mesa de coletor, símbolo máximo de rejeição social e religiosa entre os judeus do seu tempo. Jesus passa, olha, e diz apenas: “Segue-me.” E Mateus se levanta.

             Não houve exame de currículo. Não houve prova de conduta. Houve um olhar que via, no publicano desprezado, o futuro apóstolo e evangelista. Os fariseus reclamaram: “Mas tu não podes ir à casa desta gente!” E Jesus respondeu com uma lógica que continua incomodando: “Não são os sadios que têm necessidade de médico, mas os doentes” (Mt 9,12).

             Este é o coração do ditado: Deus não cancela o passado de ninguém, Ele o reescreve. E, no mesmo movimento, não sentencia o futuro de ninguém ao seu pior momento.


Por que “é missão de todos nós”

          Se é assim que Deus age, então essa mesma lógica precisa habitar nossas comunidades, nossos grupos de reflexão, nossas famílias, nosso olhar sobre o outro. E é aqui que a frase deixa de ser apenas bonita e se torna urgente:

       Vc É missão de todos nós recusar o papel de fariseu. Todos nós, em algum momento, já olhamos para alguém e o reduzimos ao seu passado — ao erro que cometeu, à fama que carrega, ao rótulo que a comunidade lhe deu. Mas se não há pecador sem futuro, então cabe a nós sermos os primeiros a acreditar nesse futuro, antes mesmo que a pessoa acredite nele.

É missão de todos nós sermos “Mateus” quando fomos chamados. Ninguém que hoje serve à Igreja, como catequista, ministro, líder de grupo, ou simplesmente como cristão fiel, chegou até aqui sem um passado que precisou de misericórdia. Reconhecer isso não é motivo de vergonha, mas de humildade agradecida: se fomos acolhidos apesar de quem éramos, também somos chamados a acolher.

              É missão de todos nós sustentar a esperança de quem já perdeu a própria. Há pessoas que se autoexcluem da fé, da comunidade, dos sacramentos, porque já se convenceram de que “não há mais lugar” para elas. A elas, especificamente, essa frase precisa chegar como anúncio, não como consolo vazio: o futuro continua aberto, porque a misericórdia de Deus é sempre maior que qualquer história (1Jo 3,20).


Uma missão concreta, não apenas um sentimento

Talvez a pergunta mais honesta que essa frase nos deixa seja: quem, na minha vida, na minha família, no meu bairro, na minha comunidade, eu já classifiquei como “sem conserto”? E o que mudaria se eu, hoje, olhasse para essa pessoa como Jesus olhou para Mateus?

           Não se trata de ingenuidade ou de minimizar o pecado. Trata-se de recusar a tentação de fechar portas que Deus insiste em manter abertas. A Igreja, lembrou o Papa na mesma catequese, “não é uma comunidade de pessoas perfeitas, mas de discípulos a caminho, que seguem o Senhor porque se reconhecem pecadores e necessitados do seu perdão.”

            Por isso, sim: é missão de todos nós. Não apenas dos padres, dos religiosos, dos catequistas de ofício — mas de cada batizado que já experimentou, na própria pele, o que é ser olhado por Deus além do próprio passado.


E você? Há alguém em sua vida a quem você poderia devolver hoje a esperança de um futuro possível?

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