A visita marca o
hospede e o hospede marca a visita.
“Seja bem vindo ô lê lê, seja bem vindo ô lá lá, paz e bem
pra você que veio participar...”
Foi com esta alegria que recebemos a comunicação que irmãos
de nossa congregação nos visitaria, entre eles o “mais velho” (na cultura
angolana o mais velho é aquele responsável pela guarda da história e por manter
viva a tradição cultural do seu povo, não significa o mais idoso, é o que tem a
autoridade reconhecida), depois de um ano e meio, nossa alegria se multiplicou
por saber que outro irmão também vinha com desejo de se fazer hospede nesta
casa angolana que nos acolheu, pois estamos aqui com a missão de ser hospedes
na casa do outro.
A visita na cultura luvale e outros povos angolanos só tem a
data de chegada, por isso a saudação: “Tambwokenu mwane” (boa chegada, ou, seja
bem vindo) ecoa no coração do visitador como sinal de acolhida e respeito pela
sua história, viagem realizada e as notícias que trás dos lugares por onde
andou; o relato do que se passou na viagem é muito importante, pois confirma a
coragem, a ousadia e perseverança no que foi programado..., fomos acolhidos em
muitas comunidades com a frase: “muito obrigado senhores padres que não mediram
esforços, percorreram grandes distâncias, enfrentaram dificuldades, mas agora
estão aqui, muito obrigado!” Palavra que nos foi dada e que passamos e estes
nossos irmãos Pe Geraldo Mayrink e Pe José Estevam e aos outros irmãos e irmãs
que se fizeram presentes de coração nesta visita canônica; congregacional.
Numa antítese do evangelho é Isabel visitando Maria. A origem
de uma história que visita o início de outra história, o futuro planejado em
“Capítulos” anteriores que se torna presente com esta presença, confirmando
assim o presente do nosso futuro. Recebemos a visita destes nossos irmãos como
aqueles que trazem notícias de amigos, situações, alegrias, esperanças,
angústias... Reconhecemos nas palavras destes nossos irmãos a presença do
Espirito Santo que nos une na missão, fecundando nossa saudade e confirmando os
benditos frutos que oferecemos a esta cultura. Temos, também a sensação de que
como Isabel ficou cheia do Espírito Santo e a criança saltou de alegria no seu
ventre ao ouvir a saudação de Maria, estes nossos irmãos também saem marcados
pela vivência celebrativa nesta hospedagem, tal como João Batista saltou de
alegria, imaginamos que estes nossos irmãos se alegraram com a missão
Sacramentina deste lado do atlântico.
Com esta visita cria uma marca, um ponto de avaliação, antes
da visita e depois da visita. Amadurece em nós a certeza de não sermos
“aventureiros travestidos de missionários”, não estamos aqui para fazer experiência
missionária, mas para realizar um projeto congregacional, realizar o futuro
planeado em muitas oportunidades de reflexão em reuniões SDN.
Renovamos em nós a energia interior tanto quanto a exterior
(haja vista que compramos um gerador novo, pois as visitas devem passar bem,
consequentemente usufruímos dos frutos desta visitação...)
Fomos marcados por estes nossos irmãos pela disponibilidade
da viagem, ás vezes “por amor a missão”. (viajar nos bancos lateriais de uma
landcruiser em estradas pouco “civilizadas” demanda disposição). Marcou-nos
também o “espanto fenomenológico” diante de sabores, cheiros, fonética,
distâncias, cores... As novidades nos tornam mais novos... A alegria de
celebrar juntos as laudes, as completas... Partilhamos a ausência de informações,
pois único meio de noticia é a radio em francês ou inglês... só mesmo com a
visita costumeira ás irmãs, os padres e os brasileiros que estão em Cazombo
para acessar a internet e saciar nossa fome de notícias...
Fomos marcados também pela solidariedade de uma carta, um
cartão, a oferta financeira, uma lembrança, uma saudação, um abraço... Sentimos
que estamos juntos!
Ainda na cultura luvale e de outros povos angolanos, a visita
fica até quando o hospede lhe oferece dinheiro para regressar a sua origem.
Para nossa paz interior e equilíbrio financeiro de nossa comunidade, estas
visitas deixaram muito mais que trouxeram.
Reacende em nós a saudade congregacional, encarnar-se em
outra cultura exige renúncia da cultura assimilada, é trazer na bagagem “cabeça
e coração”, sabemos que nunca seremos angolanos, mas temos certeza de estar
perdendo a originalidade brasileira, sem isso não há encarnação. Porém é bom
estar junto dos nossos, dos que tem os mesmos ideais, carisma, sonhos... mesmo
que haja divergências, o que é saudável para todo grupo crescer com maturidade.
Acreditamos que estas divergências devem até mesmo crescer, pois não podemos
pensar a congregação SDN somente de um lado do atlântico, estamos absolutamente
certos de que estamos na “pauta” e que vamos permanecer. Pois, nossa história
está mais ampla.
Sentimos visitados não só por haver cumprimento de um
protocolo constitucional, mas de irmãos visitando outros irmãos, na alegria, na
simplicidade entre os “pobrim”, na partilha das atividades do lar; cozinhar,
lavar, passar...
Visita uma marca que fica.
Uma história que se partilha!
Uma experiência que enriquece.
Uma vida que renasce
Uma fé que vivifica,
Uma alegria que se renova
Uma nova histórica que surge
Uma esperança que floresce
Uma caminhada que se avalia.
Um horizonte que se abre!
Obrigado à visita que nos fizeram!
Pela alegria que nos trouxeram.
O coração se abriu
O olhar se purificou
A certeza que não estamos sós
Obrigado pela aproximação da vida que estava distante.
O sorriso de nossa família
As lembranças dos amigos
E as orações dos crentes.
Tunasakwilila mwane.
Realmente, a visita é uma marca que fica no visitador e no
hospede.
Obrigado a Deus que nos ensinou essa arte de marcar as
pessoas com o selo da esperança, com aquela visita que Ele nos fez e que nunca
mais esquecemos. “Encarnação, para a
vida do mundo!”
Pe. Renato Dutra
Borges, SDN
Pe. João Lúcio Gomes
Benfica, SDN
que bela crônica, sempe me emociono com esses relatos...e fico meio que sem palavras, lendo relendo, buscando entender entre linhas a emoção do momento de quem relata.Obrigada!! Boa missão e coragem sempre!! abraços!!
ResponderExcluirPor isso gosto de crônicas. Fui sentindo junto com os senhores, padre Renato e padre João Lúcio, a alegria de receber amigos em terras tão distantes.
ResponderExcluirTa aí uma viagem que eu gostaria de fazer. Deve ser motivador presenciar o trabalho de vocês.
Parabéns, padre Renato!
Deus abençoe vocês nessa missão.
Abraço
!